—Oh! condessinha, é cruel. E sentia-me córar como um cabula.
—Olhe, quer que sejamos francos? A minha vida é bem triste. O conde é um rapaz adoravel. Vestidos, quantos appeteço. Manda vir joias de Paris. Não me recusa cousa alguma. Eu não queria tanto sim, vê? Porque isto mostra-me que elle me esqueceu cedo, que se não interessa por mim, que se não preoccupa dos meus caprichos, entende? Que me deixa ir assim, ao Deus dará. E juro, Armando—eu não lhe merecia isto.
Chispavam scentelhas do meu olhar na ampla dobra azul do collarinho. A sua tunica branca, immensa, apertada na cintura sem esforço, quebrava-se toda em dobras á roda, aos seus movimentos rapidos. E contra a luz os seus cabellos crespos, cortados em borla na fronte, lembravam fios de ouro sem liga. A sua voz tinha uma resignação penitente, afogada n’uma tristeza passiva e sem resolução.
Commentei:
—Oh! é injusta. Não é isso que o conde me confessa todos os dias.
O labio teve um escarneo cheio de meigas censuras.
—Realmente? Olhe cá. E elle diz então que me ama? Entendo. Armando pensa que o amor que elle lhe narra é consagrado a sua mulher? Porque, diga, Carlos nunca pronunciou o meu nome durante essas expansões. Seja franco, vamos. Mas diga então.
—De certo que pronuncía, condessa: é bem claro, é lógico.
Ergueu-se vivamente, a mão crispára-se-lhe.
—Mente, Armando, mente! Perdôe-me a injuria, mas falta á verdade. Elle ama apenas estas coisas, ouça: