De uma vez, lembrava-me, haviamos jogado a tapona; elle tivera um gallo na testa, feito com um compendio de logica, a que nunca pudera chegar. E tinhamos ficado mal, indifferentes, todo o anno. E via-o magro e bonito na sua blusa de riscado cheia de tinta de escrever, um molho de chaves de bahús na algibeira, tilintando.
Ás onze horas ia ao club fallar em politica, altivo na sua opinião respeitada, entre conselheiros graves de calva e suiças claras. Á meia noite, Fatime, o vampiro, esperal-o-hia n’um coupé, a S. Roque, para irem ao Restaurant Club cear, e fazer depois a digestão entre beijos e champagne até madrugada, hora em que a bailarina costumava receber um trintanario loiro, trescalando a cavallariça.
E reatando a palestra, para dizer alguma coisa, perguntei:
—E a condessa, quantas primaveras?—Olhava de soslaio o seu largo collarinho azul e vinham-me suspiros evaporados d’uma grande indolencia.
—Dezoito, respondeu, mas estou velha, sabe?
—Uma aurora! disse eu com a petulancia de quem lapidou uma phrase com o meu tom de mais effeito, de que usava nos grandes momentos. O meu olhar cahia sobre ella, como uma má sina. Na penumbra, brancuras de seios empallideciam. E continuando:
—Quem tem dezoito annos é sempre feliz, innocente; aos dezoito annos a vida é uma benção, um aroma, uma perola... E queria ser eloquente, mas estendia-me, fazia má figura. Ella ria com os seus dentinhos brancos que recortavam de alvuras gulosas o escarlate lascivo da sua bocca humida.
E grave, passado tempo:
—Sabe, Armando, que essa sua prosa sujeita a rimas, dava bellos endecasyllabos?
Fiquei todo corrido, uma larga desconsolação espasmodica, as fontes aos baques.