—Como soube...

—Comprei os criados. Póde ir dizer a meu marido. Quando se é trocada por uma bailarina, fica-nos o direito de chegarmos até onde nos aprouver. Não lhe parece?

E atravessava-me com o olhar. O seio batia. Fugitivamente, os meus olhos iam casar-se na côr do seu collarinho. Curvei a cabeça sem responder. A condessinha insistiu com doçura, quasi em segredo:

—Não acha?

Fechei os olhos sem dar palavra. Sentia-me perturbado. Onde ia ella chegar? E depois lentamente, respondendo á sua pergunta, os meus labios disseram não, mas todo eu affirmei que sim.

Podem clamar quanto quizerem, mas a condessinha desejava-me, queria-me, ella, a esposa do meu melhor amigo, e a minha fragilidade sentia-se attrahida para ella, como uma aza de penna para um iman, sem remedio, sem consciencia e sem destino. Para que nos deixava o conde todas as noites sós? Para que a desgostava a ella, pobre criança innocente e caprichosa?

Havia uma semana que eu andava perturbado diante de Beatrice. Notára que os seus collarinhos de serão eram cada vez mais largos, e que o seu seio de um marmore fatal, em que destacaria bem o sangue d’uma punhalada, arfava impetuoso, se proximo de mim. As minhas noites entraram a ser riscadas com a phosphorescencia d’aquelle desejo, como um profundo mar entenebrecido e sombrio. Os seus olhos fixos e humidos de ancia, grandes como dois mundos, estavam sempre diante da minha vista. E o peor não era isso.

Mas aquelle diabo do collarinho...

—Armando, disse ella, bem sabe como eu sou supersticiosa. Vai acontecer desgraça por certo.

Olhe. Hontem, uma borboleta negra entrou-me no boudoir, em quanto tomava o meu banho tepido. Tudo estava fechado, as cortinas e as vidraças unidas, os stores pendentes. De modo que da rua, aquella fatal mensageira não veio, com certeza. Digo-lh’o eu, Armando, vai succeder desgraça. Não dormi esta noite, pensando horrores. O conde veio tão tarde!...