E n’uma disposição rebelde, fatigada das saturações da côr, das exuberancias systematicas de musculatura, das garridices da fórma, da abundancia de pinturas, voltou para traz antes de chegar ao fim, entrou no carro cheia de spleen e abatimento, e mandou rodar para casa.

Atirou o chapéo mal entrou no boudoir; a camareira trouxe-lhe o roupão de linho de Manchester com que costumava trabalhar; e envolta no tecido de listas graves a fresca figura de uma pallidez serena, foi tomar assento no seu atelier, diante da estatua de marmore branco, que começava a sahir ainda indecisamente, da bruta massa de pedra, ferida pelo seu sinzel phantasista de uma graça e de uma originalidade captivantes.


Havia tempos que trabalhava n’essa obra, e com que amor!...

A vida das outras mulheres era-lhe irritante, apertada n’um pequeno cinto de conveniencias e vulgaridades. Pouco conhecera da familia, não sabia admirar o que nas mães se chama uma missão heroica, e nas mulheres em geral, os deveres proprios do sexo. Tinha percorrido o mundo sósinha. A quantos a amaram n’esse periodo, sorrira sempre. Á sua natureza excentrica appareciam deformados em esgares ridiculos, os galans modêlos. Fatigava-se depressa. Demais tinha um intuito finissimo d’artista, altivo de mais para aceitar lugares communs. Mas havia na sua vida este episodio—uma noite, n’um circo de Napoles, vira fazendo equilibrios n’um globo, um rapaz vestido de meia, agil e elegante. Nunca pôde esquecer aquella figura que surgia pela primeira vez á sua imaginação, como efflorescencia rara, sonhada entre incoherencias de febre.

Procurou depois, mais perto, essa soberba organisação que fizera na sua sensibilidade como um lampejo instantaneo, a fascinação sombria e fatal do jettatore. Pouco a pouco, a sua mente apoderou-se d’aquella imagem fascinante, correcta como não vira outra, juvenil como não sonhára igual. Todas as noites ia ao circo vêr trabalhar o equilibrista: dominava-a a soberba attitude do funambulo, livre, impetuosa e colossal. N’ella sentia-se de facto, toda a opulencia d’uma seiva que irrompe, em circulação vigorosa e regularissima; todos aquelles fortes membros elasticos, flexiveis e aptos aos movimentos mais contrastantes, se sentiam palpitar de saude, de vida e de belleza, rhythmo sonoro, cheio de presteza e propriedade.

E aquella appetitosa figura de adolescente trigueiro, os olhos esmaltados de uma serenidade de deus, plastica irreprehensivel e firme, apoderaram-se da contessina, com um impeto, uma violencia que tocavam os paroxismos da loucura.

Começou então uma existencia nocturna, roubada de alegrias, cheia de sobresaltos, terrores e prazeres. Zampa, o funambulo, levava os dias cahido entre garrafas de cognac, e fumaças de charuto. Além d’isso, tinha gordos pedidos de dinheiro, teimosias de parasita e surdas raivas de vadio. Era exigente como um facchino e brutal como um barqueiro: a devassidão exasperada que busca viver fóra do tedio adquirido por longos dias de desordem, e mediante phantasias realisadas á custa de grandes despezas. Ella adorava-o; ás vezes tinha medo.

Sentia-lhe as mãos grosseiras, callejadas do trapezio, a voz rouca, o halito alcoolisado, um cheiro a charuto que se mettia pelas mucosas dentro. Gostava porém de o agarrar pela cintura, de lhe pender do pescoço nu com todo o peso do corpo, de se entregar com um grande soluço dilacerante, vergada para traz, cabellos soltos e a tunica rasgada de alto a baixo, com a folha d’um punhal. E era com uma delicia inexplicavel, aguda e cheia de fremitos, que lhe tirava a capa, quando Zampa chegava do circo, ainda com os fatos da arena, couraçado na sua belleza superior e intangivel.

O espectaculo de um corpo fortemente creado, embriagava-a de uma aspiração criminosa e de uma animalidade fatal: queria-o! Algumas vezes Zampa não vinha, e as horas da noite deslisavam para a pobre leviana em supplicios atrozes e vacillações eternas. Então sahia a procural-o, só, envolta n’uma d’essas mantas de côres vivas, que Livourno produz, um punhal no cinto e pallida como uma esperança pisada á beira d’um esquecimento. Já podia entrar nos lugares lobregos onde tilinta o dinheiro dos vicios cobardes, para arrancal-o do jogo, embriagado e vil, fallando uma aravia brutal. Os convivas faziam-lhe toasts, cobriam-na de sarcasmos, prenhes de insolencia de bordel. N’estas luctas supremas, parecia que a sua paixão se avigorava; queria explicar a si mesma por que razão esse palhaço a dominava e a prendia, fazendo d’ella uma escrava; reflectia então insurgir-se contra semelhante envilecimento, readquirir a sua liberdade de outr’ora, a sua franca alegria de criança: impossivel! Quando tratava de expulsar de si o ebrio, com desprezo vehemente e indignação explosiva, como se levantava diante d’ella a esplendida figura de archanjo que era o seu desejo, o seu gozo, o seu deslumbramento e a sua perdição; e era sempre o mesmo olhar placido que ella contemplava, a mesma carne vigorosa, de uma tonalidade opulenta, a mesma linha soberba do perfil, a mesma postura de academia, altiva e forte, como a de um gladiador que triumpha, na arena onde espadana o sangue dos martyres e se espedaçam corpos frementes de victimas obscuras e tragicas. Em outros dias, á força de supplicas, Zampa ficava: era uma festa. Sahiam de carruagem para o campo, lá passavam a tarde no meio da poderosa efflorescencia dos arbustos, no silencio das villas brancas, em torno de que se alastravam vinhedos, sob os nogaes de um verde quente ou entre perfumes acres de pinheiros que gemem o seu cantico desolado. Jantavam sobre a relva, como bons lavradores: elle não bebia então. Tudo em roda estalava de risos metallicos, finamente timbrados; era bom viver assim. N’aquella affinidade de sensações tranquillas, a alma d’elle parecia irradiar uma delicadeza poetica. A contessina descobria-lhe predilecções de paizagem, observações sentidas, fortes destaques de inspiração, uma docilidade de caracter, mesmo. E era feliz, esquecida das angustias de outras horas, com a mente povoada de sonhos de ouro. Se fosse assim sempre! Se fugissem para um paiz remoto, o Oriente, n’um mosteiro em ruinas!... E figurava minaretes tartaros, as grandes tulipas das cupulas, rendas frageis dos porticos arabes, o céo profundo e calido, onde a miragem inverte os panoramas, palmeiras seculares, erguidas entre casas quadradas como dados colossaes, albornós brancos, barbas ponteagudas e tez parda—como nos desenhos de Bida. Ou n’uma herdade perdida no seio dos Appeninos, longe do bulicio e á beira d’um lago, n’um chalet vermelho, entre arvores. E pelas madrugadas roseas iriam tomar os leites perfumados de turinas brancas; os sinos das ermidas tocariam o Angelus, no meio d’um côro de passaros; a natureza seria de uma sonoridade crystallina, perlada de orvalhos frescos e calices de jacinthos, côr de rosa.