O seu lyrismo abstrahia-se em idealidades azues, em grandes e nebulosas viagens, em que destacava o grupo formado por Zampa e por ella—um pelo braço do outro.

Um domingo, elle não voltou. No dia seguinte, encontraram-no apunhalado na casa de jogo. Foi quando começou a estatua. Dentro de poucos mezes, o marmore desbastado, realisava a creação mais lucida que se possa sonhar. Era uma obra prima realmente, esculpida com verdade profunda e inspiração fogosa. Sobre um plano inclinado, via-se um grande globo polido, retido a meio caminho do declive. Sobre o globo, n’uma posição agilissima e graciosa, o funambulo com os braços abertos, as pernas quasi unidas, a face risonha, juvenil e um pouco ironica, procurava conservar resolvido o seu problema de equilibrio pelo maior espaço de tempo possivel: e toda aquella obra resaltava de vitalidade, de arrojo, e de elegancia. Uma lufada de genio passára por alli. Quasi se esperava vêr oscillar o globo, moverem-se os pés de Zampa, erguer-se um pouco o travessão de balança que elle fazia com os braços para deslocar imperceptivelmente o centro de gravidade a fim de o fazer subir ou descer, andar ou desandar, dentro da base de sustentação, e vir descendo, descendo conforme quizesse, pelo declive geometrico e dôce do plano obliquo, sempre sobre o seu globo humilde e no meio das ovações estrepitantes de alguns milhares de espectadores. Era Zampa tornado estatua; as mesmas soberbas linhas, a mesma irreprehensivel musculatura, a perna firme, retesada e direita, de uma elegancia unica, os fortes encontros, a larga espádoa de heroe, de uma curva severa, o braço sem grandes nós articulares, o pulso athletico e ricamente modelado, um peito leonino em que subiam ondulações viris de seios, a cabeça um primor de sinzel e um prodigio de distincção, alta, cabellos revoltos, a audacia dominadora, olhando em face a turba presupposta, com o ar superior de quem se faz admirar.

Era Zampa. Ninguem que o tivesse visto na arena podia desconhecel-o.


Ao acabar o trabalho, quando n’uma contemplação palpitante ergueu os olhos sobre a sua obra, o sinzel cahiu-lhe das mãos e os soluços estrangularam-lhe a voz.

Toda a sua alma estava alli, como talvez nos primitivos dias do mundo, a alma do bom Deus, nos corpos dos primeiros homens creados. Nada fôra omittido: era elle, bem o estava vendo, risonho e vivo como outr’ora, os labios quentes de beijos e o olhar scintillante de raios. Bem o estava vendo! Os dias que mediavam entre a morte e a resurreição d’aquelle homem tinham-lhe centuplicado o amor, tornado candente o desejo e calcinado as ultimas fibrilhas de receio. Era sua, era d’elle para sempre. Passariam diante de todo o mundo, abstrahidos um no outro, com o olhar errante nas estrellas.

E de rastos no xadrez do atelier, cabellos soltos em espiras procellosas, o olhar faiscante de loucura, semi-nua, agonisante, branca, cingia com os braços a sua obra immortal, tentando aquecer com a lava dos seus beijos a gelida indifferença do funambulo de marmore.

Emfim acharam-na cahida aos pés da estatua, abraçada ao globo como a serpente dos retabulos da Virgem, um sorriso divino de bacchante nos labios emmurchecidos. Morrera.


Uma palavra de confidencia. Não procurem na sociedade a contessina: seria ridiculo! O amor moderno, despido dos atavios romanticos e das consagrações immoraes, tornou-se fóra da familia, o que é na sciencia e referido ás outras especies animaes: a excitação fatal, regida por leis physiologicas, que attrahe e liga, dois sêres da mesma constructura organica e da mesma conformação anatomica, posto que de sexo differente. O mesmo que para os cães, que para os elephantes, que para os peixes, que para as aves, que para os insectos: instincto, exacerbado na raça humana talvez, pela depuração do systema nervoso. Degradante porém n’este caso, por improductivo. Actualmente ha só duas mulheres: a da familia, a mãi, a esposa, a filha; e a da viella. Esta ultima, comprehende-se, se chega a amar um funambulo, ama-o caninamente, pela sensação que lhe arranca. Se o funambulo morre, esse amor despertado, não transforma nunca a cocotte n’uma artista, qualquer que seja o seu grau de educação, de gosto e de talento.