Se quizerem vêr passar por instantes a contessina, tal como a sonhamos, vão a um atelier onde trabalhe um pintor de genio, e onde se curve um esculptor sobre a pedra ou sobre o tronco, ou observem um poeta que febrilmente escreve os alexandrinos do seu poema. Em qualquer dos tres, poeta, pintor ou esculptor, pousou o beijo da contessina. Não é uma mulher, meus caros, mas o sopro abrazado que passa e se extingue, depois de haver creado tambem, o seu funambulo de marmore. Chama-se a Inspiração. Devemos-lhe o machado de silex e o desenho rudimentar gravado em certas cavernas sepulchraes; viveu já na cidade lacustre, onde fazia collares de dentes de carnivoros para ornar o peito dos vencedores; passados seculos, ergueu a Acropole grega, o Pantheon e os circos, fez o Colliseu e a Capella Sixtina; tudo quanto é grande alevantou-o ella, amou os artistas da Renascença, os architectos piedosos da meia idade, levou ás fogueiras os apostatas, guiou Luthero, descalço e faminto, através da Allemanha, impoz Savonarola na Italia, e Christo obedecera-lhe muito tempo antes. Na sciencia, da mesma fórma que na religião e na arte, tudo lhe pertence e tudo lhe obedece; foi amante de Archimedes, de Newton, Laplace, Tyndal, Cuvier e Owen, e sempre a mesma frescura de tez e a mesma suavidade de fórma, a mesma scintillação no olhar e o mesmo braço immortal e correcto, que rasga no incognito um sulco palpitante e magnifico.

1877.

O Milagre do Convento

Ficava o convento a meio das vinhas, n’uma larga planicie florente e verde, em que as oliveiras punham a tristeza biblica das suas comas cinzentas, como de zinco oxydado.

A léste corria o enorme espinhaço da cordilheira, alteroso e pavido, cuja nudez aggresiva de linhas se coloria de manchas plumbeas e vermelhentas, de que os penedos destacavam selvaticos, lembrando ruinas de monumentos celtas. N’um campo de visão esplendoroso e infinito, alargava-se para o sul o horisonte azulado na massa d’ar, semi-circulos de planicies que mais e mais se iam perdendo no esfumado das exhalações longinquas.

Do campanario da igreja, o olhar que se alongasse, transpunha d’aquella banda livremente, a fronteira de Hespanha, no seu vôo silencioso de andorinha inquieta.

Em torno ao velho casarão, a ruina dos muros da cerca, uma alta cruz truncada, e dois ou tres arcos d’um antigo aqueducto de abastecimento, assignalavam a expulsão violenta dos pobres capuchos, primeiros senhores da casa até ás luctas da ultima guerra civil. O edificio e a cerca, vendidos a um fidalgarrão da Vidigueira, derruiam vagarosamente, á mingoa de reparos. O fidalgo arrendára tudo, abandonando a provincia onde só voltava de anno a anno para vender herdades ou hypothecar pastagens e azinhaes. Na cerca, os amplos tanques de pedra estavam desconjuntados e seccos, cobertos de cicutas viridentes; a canalisação atulhava-se de raizes e moitões de lôdo das ultimas enxurradas; cahira o aqueducto; e á bôcca lobrega das cisternas, as figueiras bravas irrompiam alongando os troncos brancos, em que rebrilhava o verde de largas folhas de recortes duros, como antigas faiences de Coblentz. Debaixo das nogueiras, cujo aroma rescendia morno a cada respiração da aragem, torciam-se as heras nos bancos de granito, estendendo tentaculos no seu deboche de vegetação verde-bronze, e subindo como um desejo, pelas fibras das arvores colossaes. Uma estatua de apostolo martyr cahira de encontro a um castanheiro enorme, cujas palmas faziam cupula sobre essa cabeça vergada, de granito. Ao longo da ribeira, os platanos e as faias postavam-se como avançadas, n’um surdo murmurio intimo de seiva. E para além o laranjal espesso, vergado até abaixo, alargava-se embalsamando o ar, onde as pombas fugiam no azul pallido, como almas, que purificadas penetram os hombraes serenos da bemaventurança. O convento, de paredes cinzentas, telhados cobertos de herva e janellinhas de cellas, desamparadas como orbitas sem olho, pesava na paizagem viva, com um ar de mendigo que esmola, á beira dos caminhos. Acima da grande massa oblonga de muros, fortalecidos a gigantes de cantaria, as duas torres sem cupula, encimadas de pequenos obeliscos de alvenaria musguenta, de cujas cristas o furacão cuspira os cataventos, erguiam-se tristemente, com um desenho tosco e primitivo. Nos claustros, o feitor da propriedade estabelecera tulhas do lagar de azeite, cobrindo de taipa uma das faces do quadrado de arcarias, rasgadas sobre o pateo central—onde os limoeiros vinham espalmar toda uma tapeçaria de folhas curvas e espinhosos troncos, salpicada pelo oiro baço dos fructos, ovalares e rescendentes. Uma legião de passaros vivia n’esse pateo, na ebriedade festiva dos aromas; ao centro o poço de pedra, de relevos brutos, especava no ar a roldana negra que tinha, ao anoitecer, um perfil de forca viuva. No tempo dos frades, as festas cheias de rumores do velho orgão, de incensos e flôres, chamavam dos arredores as aldêas e farta colheita de esmolas. Agora a devoção por essa velha igreja em ruinas, de altares carunchentos e abobada fendida, esmorecia lentamente. Fallavam de medos errantes pelos claustros, soluços pelas escadas de pedra, e vozes que vinham gargalhar blasphemias á bocca do poço quadrado do pateo. Apparecera mãi uma filha do eremitão. E os santos, toscamente esculpidos e miseraveis nos seus farrapos de tunicas, não inspiravam respeito. O Senhor dos Passos, com uma enorme cabeça de marfim, estava alliviado a um canto, do peso da cruz, que o sacrista bebedo partira uma noite, depois da procissão. Andavam aos pontapés pelo craneiro, amolgadas e sujas, as lampadas de latão, verdentas de azevre; os castiçaes coxeavam cobertos de cera pingada e moscas mortas. E por um buraco do côro, alta noite, piando escarninhamente, as corujas entravam para os ninhos da capella-mór, famintas do azeite das lamparinas. Duas vezes por semana, domingos e quintas, Manoel do Cabo sacrista mais o padre Miguel de Deus sahiam da aldêa, para celebrarem missa no convento, a que só assistiam o eremitão e a filha, os moços da horta mais o feitor, gente sombria com o ar estupido dos ignorantes maus.

Uma noite, padre Miguel de Deus appareceu morto na cama e ficou vago o lugar de capellão do convento. Só depois de instancias repetidas é que padre Nazareth aceitou o cargo. E torcendo o focinho bilioso de egoista, dizia para Manoel do Cabo, uma quinta-feira, apontando a igreja: