—Isto não deixa nada, mas com reformas...


Manoel do Cabo que era lido em autos, historias de Carlos Magno e princezas Magalonas, não deixou sem commentarios a sentença do snr. padre Nazareth—um finorio, como se dizia na loja do Burjaca. Mas com reformas... meditava elle á lareira, em quanto a filha Escholastica, junto da candêa fazia renda, pensando em ganhões de braços robustos. Que diabo de reformas seriam? A igreja não tinha rendas, nem alfaias, nem concerto sequer. A miseria ia, esfrangalhada e immunda, das toalhas dos altares aos doceis desbotados da capella-mór. Começava a estalar a carnação dos martyres; nosso padre mestre S. Domingos perdera pouco a pouco as orelhas; havia um S. Luiz carunchoso em cujo ventre os ratos faziam residencia segura, por todo o anno. E fallar o padre Nazareth em reformas!...

Chegou o verão d’aquelle anno, tempo das romarias.

Cada domingo era consagrado a sua ermida—á Senhora de Guadelupe, a Santo Antonio, a Santa Clara, a S. Pedro das Cabeças, a S. Thiago, á Senhora das Reliquias... E as aldêas vestidas de galas, raparigas de chales escarlates e tranças postiças, cavadores de calças curtas, enormes pés e grosseiros chapéos de borla nas nucas, velhos e crianças nos seus burros, nos seus machitos e nos seus carros de mato, iam em chusma depois do jantar e meio dia batido nos sinos da parochia, estrada fóra, através as searas maduras, e das vinhas verdes opulentas de cachos, trepando collinas e chapadas de olival, em direitura ás igrejinhas brancas, abertas com um encanto de fé ingénua nas alturas, e em contemplação perpetua de horisontes sem termo. Cada uma d’aquellas imagens de bemaventurados, toscamente esculpidas e de uma pintura barbara, possuia para a raça crente dos campos, a especialidade de um prodigio, um ramo de milagre original.

Santo Antonio, por exemplo, de tres palmos de alto e o rostinho garoto de um alumno desinquieto, adorado n’um cerro enorme de montado, e visinho de um moleiro borrachão, protegia os namoros. Era o mais querido dos arredores. Nas tardes bonitas de primavera o nos domingos abafadiços de verão, a gente moça vinha bailar-lhe e cantar-lhe no adro, com um desejo de nupcias traduzido em clarões de olhar. Uma a uma, as raparigas iam cozer-lhe no manto surrateiramente, pequenos bilhetes escaldando de fé e de peccado tambem, em que se supplicava a intervenção da bemdita imagem no bom exito de uns amores que qualquer dia rebentavam em escandalo grosso—não tinha duvida nenhuma!

S. Pedro abria as portas do céo, e o seu cortejo compunha-se de velhas beatas supersticiosas e antigas fandangueiras alegres, cuja fé lhes chegára com rugas e cabellos brancos, após annos e annos de rasgada pandega. E todos esses solitarios, invocados a proposito de sêccas insistentes, colheitas ruinosas, implacaveis invernos, doenças, sezões, maus olhados, bruxedos e raios, gozavam no verão da sua festa, com musica e fogo de vistas, sermão, tourada e procissões garridas á roda da igreja, ou as mais das vezes até ao povoado e ao som d’uma foguetaria atroadora. Os santos do convento, nada! Mas com reformas, dizia padre Nazareth. Qual reformas, nem qual diabo! acabava Manoel do Cabo por acrescentar.

Um dia, descendo da torre onde fôra descobrir um rico ninho de pombos bravos, reparou n’um cubiculo do côro, a um canto, n’uns alfarrabios esquecidos, poentos e rendilhados pelas arganassas. Curioso como era, nunca para tal olhára. Agarrou n’um dos cartapacios e veio para baixo. Torceu primeiro o gasnete aos borrachos do ninho e á pomba mãi que surprehendera.

Que rica fritada não faria a Escholastica d’aquella gentinha toda, hein? Um almoço de rei! dizia Manoel do Cabo, sacudindo a poeira do livro com as fraldas de uma cruz partida a um canto, e n’outro tempo alçada á frente da communidade dos capuchos, pelos campos fóra, em dias de festa.

Abriu a grossa capa de pergaminho e leu: Chronica dos Capuchos, em largas letras vermelhas.