—Escuso de lêr, ponderava o desdenhoso Manoel do Cabo; amigos de raparigas, de vinho e rapozeiras ao sol, de pansa para o ar. Medo aos tiros, latim por qualquer coisa, e uma cantarolação do inferno nas missas. Malta! Conheci o guardião:—que grandessissimo bebedo!

Como entardecia, fechou a porta da igreja, metteu o livro no alforge mais as alvas sujas de padre Nazareth, e montado no Ginaia, jumentinho podre e pelludo, desceu para a villa. Era pelas eiras; a perder de vista, de ambos os lados da estrada, alongavam-se sinuosamente pelas collinas, as courellas ceifadas, cujos torrões, seccos dos calores tropicaes, esboroavam ao menor attrito. Os rebanhos percorriam, de banda a banda, os largos trechos de campo, fazendo um concerto de chocalhos e uma floresta de chifres.

No horisonte formidavel, murchavam dôcemente as ultimas efflorescencias da luz. De todos os lados as arvores, com os seus braços de cyclopes negros, pareciam curvar-se n’uma saudação benevola, que os melros, os melharucos, os papa-figos, as calhandras e os verdelhões repetiam ampliando, vocalisando, n’um côro estrondoso, sonoro, harmonico e incomparavel. As vinhas forravam de espessos tapizes a terra calcinada, de que se erguiam as figueiras de largas folhas e troncos brancos, n’um espreguiçamento de sésta. Desenhavam-se para o longe em curvas francas, os pendores das serranias agras, afogados na exhalação serena da tarde; de todas as veredas sahiam para as eiras récuas de possantes machos carregados de espigas, e pelas clareiras estalava em notas vivas o rumor das cantigas imaginosas. Manoel do Cabo ia dando boas tardes, aos ranchos de ceifeiras que encontrava. Á entrada da villa, encontrou padre Nazareth chupando um cigarro, em quanto no calçadouro da eira os moços retraçavam as espigas, a malho. E á noite, depois da cêa e acceso o cachimbo, lembrou-se de folhear o alfarrabio, a passar um bocado de tempo. Leu n’um cabeçalho de capitulo:

«De como Jesú Nosso Senhor se mostra prodigiosamente aos seus humildes servos capuchos, e da narração dos milagres succedidos no convento de Santo Antonio de Villa Alva».

—Pois sim, sim! disse Manoel do Cabo, com desdem. Mas leu sempre.

—«E além dos muitos prodigios em que a misericordia divina se patenteou aos nossos irmãos, sarando grande copia de leprosos, curando enfermos e fazendo sahir o Inimigo do corpo de varias mulheres, a supplica do nosso padre-mestre, fr. Antonio de Nossa Senhora, se relata um assombroso milagre que deixou prostrados em fé quantos tiveram a gloria de o presencear. Não poupa Deus os peccadores do mundo, nem retira aos que se arrependem e conquistam a graça, suas mercês e favores, que unicos são verdadeiros n’este viver de desenganos...»

—Tá! tá! fazia Manoel do Cabo, como quem conhece o terreno que pisa. Malandrice no caso!

—«Em o anno de mil quinhentos e setenta, por uma noite de janeiro, estando no convento de Santo Antonio de Villa Alva todos os nossos irmãos recolhidos em suas cellas e entregues á guarda de Deus, pois como disse o bemaventurado S. Francisco de Salles...»

—Pr’ó diabo, mais elle! commentou Manoel do Cabo, voltando a folha sem olhar a citação.

—«Se ouviu grande grita na igreja e a modos rugidos de besta féra, no meio de copiosos prantos. E despertada a communidade, se ouviu uma voz que dizia:—Ide-vos, tentador! E todos se prostraram em oração, para que Deus Nosso Senhor não desamparasse seus humildes servos em tamanha agonia e perigo, a fim que suas almas podessem desfrutar a bemaventurança, que gozam no seu reino tantos santos e patriarchas, pois como disse...»