—Esta cambada mettia tanto latinorio nos livros, como vinho no bucho. Ora a sucia, senhores!...
—«Mas o guardião fr. Antonio de Nossa Senhora, de virtuosa pratica e varão inspirado do céo, veio a elles para que cobrassem animo, e encaminhando-se todos para a igreja viram um grande cão preto, lançando fogo pelos olhos e bocca, que fazia pavor, tão furibundo estava de vêr. E no altar da milagrosa imagem do Senhor dos Passos, um leigo notou os castiçaes derribados, o frontal desfeito e coberto de babas malignas. E vindo todos, foi visto agarrado á cruz do Redemptor um noviço entrado de pouco, por nome Seraphim, que prostrado em extasi dava graças a Deus por se haver escapo das garras de Satanaz, que outro não era o tinhoso cão negro, que fôra visto em fuga.
«E todos em joelhos deram graças por tamanho prodigio. Aproximando então uma lampada da veronica da sacratissima imagem do Senhor dos Passos, notou fr. Antonio que esta chorava um choro de sangue de agonia milagrosa. E erguendo a voz ordenou a todos os irmãos que alli estavam, se prostrassem de novo, e fizessem por observar em tudo, quanto recommendam os sabios doutores da Igreja, cultivando a fé e espalhando a virtude quotidianamente...»
—N’aquelle tempo chorava, ia dizendo velhacamente o sacristão. Hoje, qual!... Partem-lhe a cruz e não abre bico; rasgam-lhe a tunica, e moita! Como diabo fariam elles a choradeira?...
N’isto bateram, e entrou padre Nazareth. Deu logo com os olhos no livro, e foi observar o trecho.
—Então vossê agora dá-se á leitura de coisas antigas, hein? Chronicas de frades, etc...
—Hum! Pouco. Era p’ra chamar o somno.
Padre Nazareth poz o dedo no capitulo do milagre, e olhando de esguelha o sacrista, disse vagarosamente:
—Quanto lhe devem a vossê do convento?
—Seis mezes certinhos—faz hoje. Nove mil reis! Se os apanho, nem acredito! Chiam-me no papo.