A senhora Marcellina que fôra ama do padre Anselmo e agora arranjava criadas e concertava cadeiras, tinha promettido a Carolina ir lá ter com ella mais a mulata, que sahira do hospital havia uma semana e lhe estava devendo cousa de quatro moedas. A Marcellina morava no pateo tambem, no primeiro andar, tinha arranjos de casa e barbicas pela cara, sua meia duzia de lençoes, um rico cordão de ouro com medalha e uma Senhora das Dôres com olhos de vidro, mesmo viva, a olhar para uma pessoa.

E fallava-se: que havia papeis, uma panella de dinheiro no quintal, ricos manteletes nas commodas, que tinham pertencido á irmã do padre Anselmo. Marcellina era uma pessoa baixa e vagarosa, aspecto redondo e rôxo de hemorrhoida, feridas na perna emplastada, anneis pelos dedos e o vozeirão d’um quartel-mestre sahindo do capote d’alcoviteira. A sua historia apoiava o enredo principal no governo civil, no hospital e na rua das Atafonas. De resto encontrára o padre Anselmo, capellão da Guia e tomára-lhe amizade. Boa pessoa, o padre Anselmo, amigo do seu amigo, boas manhãs na cama, de inverno, beberricava-lhe um quasi nada, ratão, pregando bellas peças; manhã cedo, ella ainda na cama, e vinha elle da missa, descobria-a, zás, uma palmada. E morrêra. Tudo quanto é bom acaba. A gente falla, falla ... um dia chega. E dava grandes suspiros. Carolina conhecia-a. Mal luzia o buraco, já a senhora Marcellina corria a vidraça e vinha de coifa branca, espanejar o peitoril. Tinha um sorriso agradavel; um dente tropego, unico e esquecido, esverdinhava-lhe na bocca desmobilada; as barbicas hirsutas recordavam uma gata mansinha que se corcova electrica, sob as festas do dono. Era-lhe de mais a mais muito obrigada.—De rastos que eu ande, dizia, de rastos que eu ande, não lhe pago as obrigações que lhe devo. Quando estivera doente, com tosse e muita febre, ninguem dizia que ella escapava, a senhora Marcellina vinha dar-lhe caldos e fazer meia junto do seu leito de proletaria. Havia dous annos. Mas não se davam muito; a Marcellina era mais das outras defronte, fallava com ellas de janella para janella, grossos risos e pesadas graças. E ratona então, como nunca se vira. O que sabia de frades, e do poeta Bocage!... Era arrebentar de riso, senhores. Além d’isso andava sempre occupada na vida, uma azafama, chale traçado e sapato d’ourelo, a massa dos seios papuda e mollemente batida por mais de meio seculo, arrotos estrondosos... Sahiam de casa d’ella pessoas lugubres. D’uma vez a policia fôra alli. Emfim, fallavam-se cousas, ella sabia de facadas, e Carolina ouvira dizer isto—arranja pequenas a velhos. E no fundo da sua alma branca e susceptivel experimentára horror. Na tarde anterior a filha do coveiro recolhera com ares de dia, a Marcellina estava á janella; fallaram-se, como estava como não estava, o pai como ia, e que ella ia vivendo com o seu padecimento de entranha, amargos de bocca, uma canceira, uma canceira; mesmo mortinha de todo! Tinha posto bismas de confortativo que era muito bom, andava agora tomando pózes, caros com’á fortuna, mas o fastio era grande, afflicções por dentro... O peor eram as noites, contava todas as horas. E depois as pulgas. Ai! dizia, quem tem mazella, tudo lhe dá n’ella. Que é feito, que é feito? Não havia olhos que a lograssem. De resto amava as creaturas serias como Carolina; nunca fôra de tricas, louvado Deus. E arrotava. Tinha almoçado uma açordinha, com seu ovo; tudo lhe fazia mal.—É caruncho, é caruncho, commentava. E convidára Carolina a entrar, descançar um pouco, tinha rosas no quintal, uma franga preta que já punha ovos, manto novo na Senhora das Dores—minha rica mãi do céo!

Carolina subiu, beijocaram-se, ricas filhas para um lado, abraço para outro. Carolina sentia-se contente, uma quietação plena, chocada pela sinceridade da outra. A senhora Marcellina olhava para ella de face. E largou d’ahi a nada este dito:

—Ha-de ser um peixão!—E piscava o olho pardo com ares de entendedora. Andaram vendo o quintal; Marcellina fazia-lhe um ramilhete de rosas. D’alli a nada veio a mulata, encostada ás paredes, uma cuia enorme de postiços e fundas olheiras, olhos de carneiro morto, um cheiro a cigarro e a camphora.

Mas foi-se logo encostar. Com o tempo humido, tinha dôres do diabo nos ossos. Desejaria morrer já—raio de vida! Carolina dizia-lhe palavras commovidas; que aquillo não havia de ser nada, em o tempo limpando já a cousa era outra, que tivesse paciencia, coitadinha, que tivesse paciencia. E a mulata arrastava-se, com um sorriso em que havia alta percentagem de amargura, aspecto chato e esmagado, como sacco vazio, de roupa velha. E o seu craneo pequenino de estupida, de grande bestiaga, tinha a calva depressão idiota d’uma cabaça ôcca. Quando ficaram sós, a senhora Marcellina abaixando um pouco a voz, disse á filha do coveiro:

—Tenho uma coisita que lhe dizer, seu interesse.

—Sim? fez Carolina.

—Não é cousa nenhuma má, não senhor. O seu a seu dono!

—O que é então?

—Não se zanga, não?