Ao entardecer do outro dia, a caleça entrou com grande estrepito na portada da cerca. De chapéo na mão, os moços da lavoura, o hortelão, padre Nazareth mais o sacrista, adiantaram-se para comprimentar a velha dama recem-chegada. Esta desceu amparada ao braço do padre, e sem baixar a cabeça a ninguem. Era quasi octogenaria e devia ter sido alta. E toda corcovada, com um vestido de velludo preto e um capote debruado de pelles, subiu a escada que levava ao andar de cima.

—Isto aqui é triste, pois não é, senhor padre?

—Não, minha rica senhora, não é. Em campo é do melhor que tenho visto. Muita verdura, boas aguas, rica vista, emfim um regalo de propriedade. E depois, a visinhança da casa do Senhor...

—Sim, sim, disse a fidalga. E com inflexão piedosa:

—É o que mais me consola.

A mesa estava posta. Pelas janellas abertas do refeitorio, via-se morrer a tarde e esmaecerem nas cristas as ultimas tintas ineffaveis do dia. Ao lado, as noras chiavam fazendo descer e subir sobre a agua das nascentes, a trança dos alcatruzes de barro. Sob cupulas verdes de nogueiras, amoreiras brancas e platanos, a agua jorrava nos tanques quadrados; os moços da horta faziam a rega do laranjal, leiras de pimento e carrapatos; no extenso pomar os pecegos, as maçãs e as romeiras rubras picavam a verdura de pontos vividos, de um tom sadio. O ar crystallisava n’uma serenidade contemplativa e corriam brizas impregnadas do cheiro dos fenos.

A senhora fidalga tinha-se sentado á mesa, mais a governante e padre Nazareth, que a instancias consentira tomar um caldo.

—E tem rendas, a igreja?

—Não, minha rica senhora, não tem. Os fóros de trigo apenas dão para as despezas do culto; e inda por cima mal pagos... Os paramentos são uma miseria e o templo faz-se ruinas. Uma desgraça, minha rica senhora! Desejando estavamos todos que vossa excellencia chegasse. Temente a Deus e boa christã como é, a senhora fidalga póde bem acudir com esmolas á pobreza dos santos e ao desmantelamento da igreja. Podia-se até fazer uma festa, a modos um arraial, todos os annos. Sempre concorria povo com fogaças e promessas. Mas eram precisos certos arranjos que traziam despeza. Ora não havendo fundos... vossa excellencia entende.

—Far-se-ha o que fôr da vontade de Deus, disse a velha abrindo o seu grande leque da China, preto, com lentejoulas e passaros exoticos. Tinha tirado o chapéo, bandós postiços desciam aos lados da marrafa, tapando-lhe as orelhas. Um pente de tartaruga posto ao alto dava-lhe á cabeça um ar ridiculo. A testa abaúlada e saliente, punha como um abat-jour nos seus olhos profundos, mortiços no fundo das orbitas. Recordava-se pouco do convento, da disposição dos altares e do numero de imagens. Se havia throno?