—Ora o estupor!...

Pouco a pouco, padre Nazareth foi-se afazendo ao novo estado, lia o Flos Sanctorum em casa para alardear de instruido, limava as unhas e andava gordo. Na feira de Evora, trocou a mula por uma egua castanha, comprou arreios vistosos e estribos de ferro. Ia todas as manhãs dizer missa ao convento e ouvir a velha de confissão. Á medida que ascendia no espirito da fidalga, tratava de complicar os regulamentos da devoção, difficultando a entrada no reino dos céos e pintando Deus como um rabula exigente, que embirra com as comidas dos seus fieis, e com as palavras e vestidos das mulheres. Segundo elle tudo era peccado; Deus vigiava das nuvens a humanidade; a vida era simplesmente a ante-camara do grande reino da luz, onde cada mortal mal tinha tempo para se lavar das pustulas malignas originadas da carne, e transmittidas de Adão. E recommendava á velha as asperas penitencias que alquebram, horas e horas de joelhos ante os altares, desfiando rosarios bentos e lendo com voz lamentosa as biographias dos martyres e doutores da Igreja.

Este regimen alterou a saude da velha, e ligou-a pelo terror cada vez mais ao padre.

—Só me sinto bem, ouvindo aquelle santo! dizia ella com um escarro na guela.—E com inflexão de grande medo:

—Oh não me desampare com os seus conselhos, não me desampare com os seus conselhos!

De quando em quando, Manoel do Cabo interrogava padre Nazareth:

—Então o homem chora ou não chora?

—Mais tarde. Vossê entende.

—Pois até hoje, meu rico, nem lagrima.

—Com agua quente, é que é. Vossê entende.