—Só se fôr isso. A fria não dá resultado.

Depois, com ares profundos:

—Que as lagrimas são mornas. Sendo suor, já era outra cousa. Ha suores frios! Andava mais alegre, recebera tres mezes de ordenado e um presente de pecegos, dos melhores. E ao entrar na villa, sobre o Ginaia, cantarolava brejeiramente lançando chufas ás lavadeiras—suas maganas, com quem tinham dormido a noite passada? Que lavassem as pernas, grandessissimas porcas!

As noites eram abrazadas e eternas. Não bolia folha na horta, os moços do campo dormiam ao relento sobre as mantas, e tendo por travesseiro as albardas dos jumentos. Nos aposentos da fidalga sómente, as janellas permaneciam fechadas, não apanhasse sua excellencia alguma constipação. As casas de cima, de baixos tectos abobadados e sobrados carunchentos, antigas cellas de frades modificadas para residencia profana, constituiam verdadeiras estufas no verão.

Nos corredores circulava um bafo morno, impregnado de bafio, alfazema velha e incenso—o que recrudescia de um modo terrivel a asthma da beata. Toda a noite a governante levava a abanal-a com ventarolas do tamanho de sombrinhas e a enrolar-lhe em papeis de sêda, enormes cigarros de figueira do inferno, ao som de interminaveis rezas e custosas promessas ao Senhor dos Passos. Porque era agora cega a fé da velhona, na sacrosanta imagem do Redemptor. Contára-lhe o padre a historia do convento, sua antiguidade e virtudes. Em tempos antigos, os frades vendiam uma especie de licôr, que curava da peste e punha saradas as ulceras mais damninhas. Rezavam as chronicas do convento de um almirante do mar das Indias, da casa dos senhores da Vidigueira, que voltando de longinquos paizes coberto de um vergonhoso mal, se curára de prompto tomando o benefico elixir. E junto ao tanque de pedra tinha apparecido ao veneravel padre frei Vicente das Sagradas Angustias, ancião que rasgava suas carnes a golpes de azorrague—a figura de Jesus Christo, feito homem e cheio do Espirito Santo, vertendo sacratissimo sangue de suas feridas, coroado de espinhos e clamando:

—Faze penitencia, Vicente, faze penitencia que serás commigo no reino dos céos...

Ainda agora se mostrava na terceira lagea do tanque, ao pé do cypreste, o vestigio da pégada do Salvador do Mundo.

A velha derretia-se em prantos ouvindo taes prodigios, batia nos peitos cheia de uma convicção fanatica, e bradando em guinchos de possessa:

—Oh misericordioso Jesú que eu não sou digna! Oh misericordioso Jesú que eu não sou digna!—em quanto pelos escondrijos a governante manducava sofregamente, aos ladrilhos, covilhetes e covilhetes de marmelada. O episodio do choro de sangue deu como nenhum outro, insomnias e deliquios á pobre mulher.

—Ha coisas, aventurou ella de olhos baixos, quando certa manhã ouviu narrar o milagre, ha coisas que só vistas.