E ante cada retabulo de santa ou asceta ardiam velas e lamparinas. Padre Nazareth conhecia um pouco a molestia; tivera uma irmã que soffrera d’ella longos annos. O seu primeiro cuidado foi mandar abrir as janellas, para restabelecer a corrente d’ar. A velha jazia n’uma poltrona ao pé da cama, o escarrador ao lado, tronco um pouco inclinado para a frente, o hausto arquejante.
—Então como se acha a nossa doente? perguntou carinhosamente o padre, curvando-se para ella.
A velha mal podia fallar, e fez um gesto vago.
—Ouça, disse o padre á governante, deite-lhe sinapismos no peito e nas costas.
—Já lá os tem, disse a outra, fazendo-se doutora.
—Bem. Um vomitorio então. Agua morna aos copos; façam-lhe depois cocegas com uma penna, nas campainhas.
E em voz alta, para que a fidalga ouvisse:
—Mandaram accender a lampada do Senhor dos Passos?
—Ha que tempos! tornou a governante.
A esse tempo aquecia Manoel do Cabo à cafeteirinha d’agua na cozinha, disfarçadamente. E quando a viu ferver em cachões, desceu á igreja, pela escada do côro. Havia um silencio lugubre, trevas densissimas no santuario e piar de corujas nas ventanas da torre. Junto d’uma fresta gradeada, á esquerda, abrindo para a horta, a folhagem de um chorão gigantesco fazia marulhos confusos, de maré que sobe. Fóra, nos platanos da ribeira, os rouxinoes conspiravam, e resteas de lua, brancas e vagas, entravam pelas janellas do côro, pondo luzernas no lagedo das sepulturas razas.