Manoel do Cabo desceu de mansinho a escada de tijolo carcomido, que caracolando vinha abrir-se, por baixo do pulpito. Os arcos das capellas cortavam nos muros alvacentos da igreja, enormes boccas escancaradas, em cuja guela, as linhas das imagens se esboçavam, sem relevo. Ouvia-se o roer das ratazanas nos madeiramentos carunchosos, e o rumorejo do chorão nas gradarias da fresta. Manoel do Cabo parou diante da capella do Senhor dos Passos, á escuta. N’algum corredor distante, batia uma porta. Havia conversinhas aos cantos, que ora se afastavam, ora renasciam. Á bocca do camarim enramado de cypreste, o clarão noctambulo da lampada deixava vêr um pedaço de cruz negra, e mais na penumbra a livida cabeça desgrenhada, que pendia no peito com um desalento de morte. Tudo o mais era confuso, accumulado e movediço, apparecendo nas trevas com projecções colossaes, cheias de pavor. O vento vinha a espaços, como se fôra um halito, fazer bruxolear a luz—e despregavam-se então dos angulos formidaveis, desde a abobada até ao pavimento, massas de espectros, que ante o sacrario deserto vinham dançar sabbats allucinados.

Para fallar franco, Manoel do Cabo não estava muito á sua vontade, não. Medo não era bem, realmente. E relanceando a vista, com a cafeteira a escaldar-lhe nas mãos, disse para dentro de si:

—Olhem que bello sitio para a gente apanhar um tiro...

Veio-lhe á lembrança o Estragado, que por duas vezes, contra elle puzera á cara a espingarda, e lhe promettera muito cedo noticias frescas... E o Chico da Aroeira, que andava fugido de soldado e lhe provára do cacete, d’uma vez em que fôra apanhado mais a Escholastica, no palheiro.

—Além d’isso, pensava elle, isto cheira a patifaria que tresanda.

Olhou á roda, esteve quasi a voltar para traz. Mas que diabo!... Era uma vez. Se a coisa pegasse, ninguem perdia com isso, augmentava-se a fé no povo—que era pouca como seiscentos diabos. Não pegando, era como se nada tivesse havido. E os proventos a gozar, o aceio da igreja, as procissões... Até era bom para a religião, bem pensado. Andaria pago á hora, boas gorgetas, alli estimado como um rei. E tudo por uma gotinha d’agua quente. Ora adeus!

Subiu as escadas de mansinho, com a cafeteira. Logo á entrada do camarim, deu de cara com um vulto. O Estragado. Santo Deus! Entornou a agua a ferver pelas mãos. O vulto olhava-o, immovel, todo barbado. Era um judeu da quadrilha, pintado na parede. Manoel do Cabo resfolegou com força, e foi sempre apalpando—um judeu, não havia duvida. Diabo da peça! A gente ás vezes até está parvo, senhores. E entrou a desaparafusar a cabeça do santo. O sino deu tres horas—ás tres e meia, no verão, é quasi dia. Nas lageas, a luzerna do luar ia-se pouco a pouco apagando. Os cães da horta soltavam uivos.

—Cheira a defuntos que tem diabo! resmungou Manoel do Cabo. E na escavação interior da cabeçorra chagada, ia deitando agua quente.

—Assim tambem eu faço milagres, senhor padre! trauteava o mariola, já tranquillo.

Ás quatro horas, padre Nazareth veio ter com elle.