Padre Nazareth nem escutava, mas dizia de quando em quando, para acalmal-a:

—Eu bem conheço isso, D. Dorothêa, bem conheço isso! De resto, a senhora fidalga fizera-o sciente de tudo. Quantas vezes lhe tinha ouvido—que a Dorothêa com ser sua governante não perdia os fóros de boa amiga! Ah, era tida em alta conta, creia isto. E por toda a gente, palavra de honra!—que o não dizia por ella estar presente.

—Demais, acrescentava embaindo-a com a voz ejaculada e surda, de uma discrição culposa, com que no confessionario arrancava revelações picantes ás boas moças do campo apavoradas do inferno—demais, quem lhe diz á senhora que no testamento da fidalga não ha um legadosito...

E vendo-a suspensa, o riso parvo de quem apanhou a sorte, sublinhava umas poucas de vezes o alvitre proposto, repetindo:

—Sim, quem lhe diz á senhora?...

—Que? disse a Dorothêa quasi a abraçal-o, com um bocado de rolo a despregar-se-lhe da cuia. O senhor padre sabe?

—Perdão, atalhou logo padre Nazareth, eu não disse...

E em quanto a outra ficava no corredor deslumbrada, entrou no quarto da velha com ares de levita vergado á imposição de um juramento, hombros altos, um geito vago de mãos e dizendo com um riso ambiguo:

—Segredos da confissão, D. Dorothêa, segredos da confissão!

Ficára satisfeito com o manejo politico que tinha posto em pratica. Apre! que estivera quasi a acarretar o odio da governante—uma zorra que a sabia toda! E devia ter sido bem boa! Mas estava velha, quando não... E mais tranquillo, dizia para comsigo: