—Deixal-a do nosso lado. Não se perde nada.

Tinham já acabado de armar o quarto da velha para a ceremonia da communhão. Defronte do leito e na mesa improvisada em altar, um crucifixo enorme, velho marfim de lividez polida, enchia a parede do fundo, que uma colcha de damasco azul, grandes relevos fulvos, vestia de tons dôces, ouro e céo, á luz de castiçaes e entre tufos de renda, dos grandes cortinados pendentes. Á cabeceira da cama e n’uma baixa poltrona, ampla como um divan, arquejava a doente, entre almofadas de todos os tamanhos, o escapulario branco de Santa Clara na cabeça, destacando n’um fundo de estampas devotas e rosarios tocados em mantos de varias authoridades celestes.

Quando o padre entrou, a velha tinha os olhos fechados e as mãos errantes nos braços da poltrona. O escavado da face denotava intensa fadiga, e exhaustos fundos, arrastados, difficeis e terminando em silvo, davam-lhe um jogo angustiado ao cavername do peito oppresso. Elle andava nos bicos dos pés para não fazer ruido; mesmo assim porém as suas botas novas rangiam, com ruidos impertinentes de janotinha de provincia. E sentando-se manso junto da grande poltrona da velha, tocou-lhe na mão com os seus dois dedos suados. Cortára o cabello de fresco, á escovinha, e aos cantos da testa alongavam-se para traz, lustrosos de excreção gordurenta e destacando no negro luzidio dos cabellos, dois crescentes de calva precoce, onde resaltavam relevos complicados de veias. Visto de perfil era um pouco adunco, sobrancelha cerrada e tons azues de barba espessa pondo-lhe no focinho como que as linhas de um açaimo. Tinha os olhos grandes e bem fendidos, globo um pouco injectado, estourando para diante, e um raio sagaz de pupilla que se lubrificava todo, ante as nudezes trigueiras e turgidas das raparigas da monda. Procurando fazer adocicada a rude voz de que dispunha, disse para a fidalga, de olhos baixos:

—E agora? Melhorzinha?

A velha ergueu a mão para fazer um gesto. E quasi em segredo disse:

—Assim...

—Pois visto que se sente mais alliviada vamos á confissão, para rezarmos depois a oração do Cyreneu que é infallivel, infallivel!

Dava explicações sobre a oração do Cyreneu. Tinha lido na Chronica dos Capuchos, de curas miraculosas obtidas pela reza em triplicado, de certa oração mandada ao convento por S. Simão Cyreneu residente não se sabia em que parte, e a instancias de nosso veneravel prior frei Antonio de Nossa Senhora, para uso de grande cópia de enfermos dos arredores. Para que da recitação da prece podessem tirar-se seguros resultados, urgia fazel-a recitar em voz alta e ainda de manhã, por tres pessoas ao mesmo tempo, sendo duas femeas e um macho, todas de crucifixo alçado e prostradas em joelhos ante a hostia consagrada.

A doente por cuja intenção se fizesse a reza, seguraria o sudario, em quanto a espaços, um padre lhe iria chegando aos labios a esponja embebida em vinagre, arremedo do que fôra praticado com Jesus Christo, durante a agonia.

Ouvindo a ultima palavra, a velha tremia sem responder. Mesmo assim macerada de rezas e praticas devotas, sentia no intimo o terror invencivel da morte.