Era verdade que as almas, escapando-se dos corpos como perfumes de amphoras, em ondulações suaves iam subindo aos dominios da luz, a crystallisarem-se na eterna graça, sob a unção dos threnos e no reverbero da immortal pureza. Mas o corpo que ella podia palpar e sentir, o que tinha dôres, anceios, cansaços, appetites e suores fetidos, esse que ella facultára nos seus tempos de dama do paço ás excitações de recua, do senhor D. Miguel e seus companheiros, e nos minuetes langorosos se tinha requebrado com meneios de affectada galanteria, na tenebrosa algidez do sepulcro buliria todo negro, n’essa viscosidade da podridão sinistra, que é a ultima infamia da carne!

Vendo-a inerte e muda, padre Nazareth tratava de aclarear-lhe bem as origens da oração proposta, no intento de lhe extinguir os terrores e as sombras funestas. Simão Cyreneu fôra o fiel amigo que nas ruas da amargura consentira tomar sobre os seus hombros robustos a cruz, sob que o Christo vergava, no trajecto para o supplicio. Elle conhecera passo a passo os transes da Paixão, tinha fallado com o Salvador, participado da sua angustia e chorado das suas lagrimas. Era o grande confidente do Filho de Deus, e tinha sido elle o author da benefica oração, que até grandes já tinha resuscitado. Era forçoso pois experimentar, para bem cumprir os preceitos do Senhor.

—Pois sim, sim, dizia a velha a final.

E pondo as mãos, balbuciava a confissão.

Havia já sol quando a oração do Cyreneu acabou. Fatigada por toda uma noite de soffrimentos, e sob o predominio moral da complicada reza, a velha tinha conseguido repousar um pouco. Abafára-se-lhe mais a pieira, e a respiração readquiria-lhe um rhythmo placido. A Escholastica, avisada por Manoel do Cabo, tinha vindo logo de manhã com o seu chale de ramos e lenço de sêda escarlate, o livro de missa na algibeira da saia. Em acção de graças pelas melhoras da senhora, padre Nazareth celebrou a missa d’esse dia, na capella do Senhor dos Passos, a que vieram assistir todos os homens e mulheres do convento.

Terminado o sacrificio, em quanto Manoel do Cabo ia buscar a um canto o apagador, o padre erguendo a voz pediu uma Estação pelo inteiro restabelecimento da fidalga, de quem fez o panegyrico em grandilocas palavras—mãi de raras virtudes, boa protectora dos interesses de Deus e benemerita da graça divina.

E todos rezaram a meia voz a Estação pedida, em quanto abrazada em fervores mysticos, a governante unia a face ás lageas da capella, desatando em prantos e suspiros, toda de preto e mordeduras de pulgas no pescoço tisico.

Aquella exaltação commovera a Escholastica, que disse para a mulher do caseiro:

—Se não ha-de ter amor á fidalga, vivendo ha uma quantia d’annos na sua companha!

E a outra, arrebentando nas unhas um piolho que lobrigára na trunfa do filho, durante a reza: