—Com uma certeza, apoiava, com uma certeza!
Mal o padre sahiu da igreja, a Escholastica ergueu-se para ir fazer oração ao camarim do Senhor dos Passos, a depôr-lhe no sacratissimo pé o beijo convencional.
Subiu a escada com o livro de missa nas mãos, de olhos baixos, as mulheres da horta atraz de si. E ajoelhando todas á roda da imagem, entoaram a ladainha, por que a Escholastica tinha grande paixão.
Era a filha do sacrista quem entoava os louvores ou vozes; todas as outras mulheres respondiam atabalhoadamente:
—Ora, ápornobis!
E ao Agnus Dei, como as burras se enganassem, a Escholastica reprehendeu-as com a sua voz birrenta de sabichona. Então o filho do caseiro que andava á roda bulindo, erguendo a tunica da imagem e dando-lhe puxões na guedelha, gritou de repente com o dedo estendido para a face do idolo:
—Mãi, sangue!
A caseira, que estava de lado, alongou um pouco a cabeça na direcção em que o rapaz apontava, e pôde vêr uma lagrimasinha vermelha, que cahida da palpebra do Senhor, vinha pela face livida fazendo um traço de sangue miraculoso.
A pobre mulher nem pôde dar palavra, levou as mãos á barriga abaúlada por uma prenhez medonha, revirou os olhos e cahiu para traz barafustando. Ao mesmo tempo, a Escholastica que da palpebra do seu lado vira cahir tambem a sua gotinha de sangue, abalou pelas escadas, largando o livro e fazendo cahir a rapariga do caseiro. E possessa, berrava igreja abaixo em direitura á horta—que acudissem, aqui d’el-rei, não era cousa boa, ia acabar-se o mundo!
Foi o sacrista quem primeiro acudiu á berraria, e picando o charuto para a cigarrada de ripanço: