—Qual acabar-se o mundo, nem qual diabo! O mundo não dá fim, em quanto houver santos que façam milagres e desavergonhadas que creiam n’elles.
E n’uma expansão de riso cruel, tomando assento na borda do tanque:
—Malandros e bebedas! É o que ha.
Ao meio dia divulgava-se em Villa Alva o milagre, e a população em chusma, n’um borborinho de cortiço, abandonava a terreola caminho do convento, toda inflammada em fanatismos e psalmejando orações e ladainhas. Á medida que se adiantavam na estrada, os magotes reproduziam-se e augmentavam, pelo concurso da gente que iam encontrando a trabalhar nas fazendas. As beatas ricas tinham aproveitado a occasião para fazer toldar os seus carros alemtejanos, puxados a mulas e cobertos de um toldo primitivo, de lona e caniçados. Algumas em jumentos, de cadeirinha, chouteavam adornadas de cordões de oiro, mitenes de retroz nas mãos osseas, e leques hereditarios pintados de escudeiros e reis. As do Silva, um ricaço da terra, levavam mantas de lã azul, de borlinhas, pregadas em escapulario, com ganchos representando malmequeres. E semelhante luxo fazia sensação na romaria.
Chico Praça com risos scepticos de homem que lê, fôra tambem no machinho do pai, inspirar-se e mangar um bocado d’aquella saloiada ignorante. E espetado n’um charuto de vinte e cinco, fumo de merino enorme no côco dos domingos, manta verde com perinhas bordadas, calça curta arregaçando sobre os elasticos das botorras e o atilho da ceroula á mostra, comprimentava fidalgamente os ranchos procurando informar-se do modo de vêr geral ácerca do prodigio. As raparigas voltavam-lhe a cara ouvindo-o escarnecer dos santos.
—Judeu! diziam. E umas para as outras, como se fallassem de uma universidade:
—É o que elles vão aprender a Beja!
Atraz da chusma arrastava-se cacarejando a gente pobre, mendigas velhas e descalças, physionomias de cera abrazadas por esses olhos chammejantes do meio-dia, em que se repinta em clarões a effervescencia das indoles calidas e insoffridas; velhos pastores invalidos, cobertos de pelles safadas, polainas de feltro, cajados nodosos, e um anguloso secco de mumias, e rapariguitas rotas, vivendo do rolão corneo das esmolas e que a lama cobria de crostas pardacentas. E todos n’uma passividade receosa, eternos vergados á penuria que envilece, lá iam custosamente, parando nos cotovêlos da estrada para detalharem os commentarios suggeridos pelo caso, ou recomeçar com voz quebrada o terço lugubre da penitencia. Muitas mulheres levavam azeite para as lampadas do convento, offertas de pão cozido, fogaças de gallinhas e borregos novos. E corria em segredo que as Silvas tencionavam offerecer ramos de pennas comprados em Setubal, nos banhos do anno passado.
Porque no grosso beaterio da villa, a surpreza do milagre vinha de feição, com os seus embevecimentos mysticos e esse brumoso de legenda que dá, febre ás imaginações sobre-excitadas. Havia duas semanas que escaceava thema para as parlendas de soalheiro. O ultimo caso de aborto tivera lugar havia já um mez—velharia em que mal se faltava já. E em casa das Silvas e na loja do Burjaca, ás noites, arrotando sob a azia do ensopado das cêas, a boa gente lamentava n’um fundo de saudade e desespero: