—Maldita terra! Nem ha em que se converse... O mulherio acreditava fanaticamente no sangue do Senhor do convento, uma lição a esses herejes que vinham do estudo fallando mal dos santos e rindo da confissão e da missa. Deus não era pois uma palavra vã! Vivia, amando sempre a humanidade e chorando pelas suas loucuras e crimes, no fundo melancolico de um templo, que a guerra civil profanára e derruira, nas suas contorsões de bacchante. Iam começar os bons tempos de fé absorvente e sincera, em que as almas vestem a gaze da innocencia para os esponsaes da bemaventurança. Então, por esses campos verdejantes, no fundo d’esses olivaes contemplativos ou sobre as collinas e charnecas em que ora esbravejavam selvaticos, piorneiros e tojaes, erguer-se-hiam de novo os eremiterios alvinitentes, cruz erguida nas fachadas, um cordão de tilias no adro e a porta aberta como refugio aos vergastados pela miseria, ou pelo desalento. Viria o bom tempo das procissões do campo e das festas a orgão, em que as vozes dos frades entoariam a missa n’um extasi seraphico, do fundo dos seus capuzes bemditos. E essa azinhaga lugubre que conduzia ás ruinas, o claustro transfeito em lagar de azeite e as cellas aproveitadas para residencia de gente mundana, regorgitariam novamente de fradinhos gordos, olho dôce e dentes gulosos, que em tardes de primavera, das grades do côro, lançassem cantigas bréjeiras ás roliças lavradoras engorgitadas de desejo e devoção erotica—como n’outro tempo. Muitas velhas ainda, eram do tempo dos frades; algumas mesmo tinham dado guarida a guardiões varrascos, por noites chuvosas, em quanto os maridos na adega resonavam espapaçados no vinho d’essas bebedeiras do Alemtejo, que chegam a durar semanas. E voltadas para o passado em que se reviam frescalhonas e vivas, as pobres davam suspiros de mágoa, lamentando a falta de crenças de hoje, e batendo com as cabeças nos toldos do carroção, a cada solavanco do eixo. Nos homens era menos sincera a crença no milagre. Iam poucos na romaria, e esses mesmos seguiam o femeaço para namoriscarem a torto e a direito.

Padre Nazareth contara discretamente o prodigio na loja do Burjaca, palavras simples, sem paixão e sem commentarios. Não lhe convinha muito tornar-se heroe do caso. Velhaco como era, tinha fé em que os animos se accenderiam por versões mais escandecidas e pelos exageros e mentirolas que na bocca da gentalha usam acompanhar os episodios de força, como aquelle. Effectivamente corria já na villa que a Escholastica cahira de cama, faniquitos a cada instante, um esbracejar de endemoninhada debatendo-se nos pulsos de dois sapateiros vorazes, que a tinham de olho havia muito.

Ao mesmo tempo, o sacrista referira na venda do Salta-Pocinhas, á malta que alli se juntava para beber fiado, a historia circumstanciada da velha, as suas peregrinações a Lourdes, a sua grande fé e a sua caridade, uma carinha de santa, muitas esmolas... E transfigurado, tinha descripto a imagem do Senhor dos Passos, chagado e de olhos abertos, de cujas pupillas fixas parecia sahir a claridade de além-tumulo, o quer que era que dava terror e fazia arrebentar de paixão. E as opiniões começaram a desfilar através das conversas, fuzilando, luctando, fazendo contraste. Uns criam no milagre, impondo condições. Outros andavam perplexos. Alguns riam.

—Pode lá ser!

Já se contava que o chôro do idolo, não era de hoje. Até alli ninguem reparára. Inda se o santo désse berros!... Mas calado como era, não attrahira as attenções de ninguem.

—Quem havia de dizer!... ponderava a D. Maria do Juiz. Um Senhor de pau como outro qualquer! E havia quem tivesse já desconfiado.

Algumas velhas até, sonhavam todos os dias com a imagem, resplandor na cabeça, cruz ás costas e a fazer-lhes signaes. E as outras escutando, ganiam de olhinhos piscos:

—Tambem a mim! Tambem a mim!

Mas o carreiro das Silvas, que ouvira tudo muito calado, largou esta de chofre:

—Ponho a mão n’umas Horas, em como é pouca-vergonha dos padres!