Seis mezes que se não viam. Como o tempo passa, bom Deus! Havia tres que ella debutára, e tinham-se passado tantas coisas, tantas!... Quando elle entrou, Albertina sentiu um fremito pela espinha dorsal ao encaral-o. Estava mais vigoroso e mais bonito, correcto no seu veston de grandes botões, sapatos de bicos curvos e a calça azul ferrete cahindo amplamente sobre as polainas côr de perola. Era alto, nunca lhe parecera tão alto, realmente. E o vermelho dos beiços dava-lhe um ar sadio que a frescura dos dentes justificava. A vida de Lisboa refundira completamente aquelle provinciano timido, pacato e sincero, apaixonado pela caça, leitor dos maus romances e cheio de uns acanhamentos que realmente...
Ella soubera da nova residencia de Jorge, e uma tarde, quando subia o Chiado vestida na sua pelliça e baixando a cabeça ás barretadas dos folhetinistas que por alli se davam ares principescos, tinha dado com elle, cara a cara.
Fingiu não o vêr. Tinham-se-lhe esgarçado já as primeiras illusões faiscantes da vida nova em que entrára; sem querer até, experimentava ás vezes n’aquella solidão em que se via, mesmo no calor da celebridade que se arrogára, o quer que era de remorso, tristeza impregnada de torpor, um secreto medo da morte e a ternura para os tristes velhos que quasi aniquilára com os desvarios d’aquella vida deshonesta. Ria-se d’estas pieguices depois. Realmente, uma rapariga como ella era, a pensar em coisas de tão ridicula sentimentalidade!... Um dia escreveu-lhe; queria ser perdoada, amada outra vez com aquelle amor tão sincero e tão simples, de homem forte e cheio de mansidão benevola dos sãos. O egoismo da gente com quem tratava, fizera-lhe sentir a necessidade de ter como defeza um amigo leal. Estimal-o-hia simplesmente, vertendo-lhe no seio as pequenas amarguras da sua vida caprichosa. Amal-o não, talvez não. Além de que, Jorge podia lá amar uma mulher de theatro, que ia cear ao José Augusto com actores e jornalistas, dava beijos nas faces oleosas dos empresarios, e era forçada a pagar generosidades de joias com generosidades de alcova... Amal-o não, ai não! Conhecia-lhe bem a linha de caracter, escrupulosa e séria. Sentira a adoração d’aquelle homem, ardente e balbuciante, com uma especie de mysticismo estranho. Que dedicação e que lealdade! Ah! tivesse ella conservado a sua linha casta de filha unica, reclusa na paz da casa paterna, e seria agora a esposa d’aquelle rapaz de hombros redondos e epiderme fina, sob que um sangue generoso em reticulos circulava. Que vida teriam feito juntos ás noites, de serão, sob a luz do mesmo globo e em torno da mesma banca de trabalho, os pequenitos adormecidos n’um canto de sophá, cahidos os reposteiros e uma paz celeste abrindo as azas sobre o dulcissimo grupo das duas cabeças sonhadoras! Que de asneiras se fazem na vida, bom Deus! Inda se elle a quizesse como amante... Áquella idéa, uns restos de pudor afogueavam-na, erguia-se phrenetica amarrotando as bordaduras da robe, uma vontade amarga de morrer.
Encararam-se por um instante, ella com um sorriso contraindo, elle de imperturbavel seriedade e muito pallido. Quando Albertina lhe tocou na mão sentiu-a abandonada, como a que se dá aos indifferentes. Seis mezes antes, que differença!...
—Senta-te aqui, disse ella.
E passado um instante:
—E meu pai, e a mamã?
Jorge encolheu os hombros.
—Que tens tu com essa gente?
—É verdade, esquecia-me, tornou ella baixinho, com um estrangulamento de lagrimas. Eram sete horas, e não havia espectaculo n’essa noite. O gabinete tinha uma claridade velada, que esbatida do globo fosco do candieiro, amaciava os aspectos n’uma penumbra vaga de entrevista. Com as janellas cerradas—era no inverno—os perfumes dos enormes bouquets suffocavam, tepidos e langorosos. Nas jardineiras, em pinhas de pequeninos vasos branco e ouro, as begonias espalmavam as suas folhas decorativas e gordas, bronze raiado de escarlate, e cobertas de um delicioso crochet. Cahiam pesadamente das galerias os reposteiros amarellos, destacando no fundo claro das paredes. Pelos fauteuils, na ottomana e sobre as etagères douradas esqueciam-se as partituras em voga e os papeis, trasladados pela grossa letra enfadonha dos copistas. N’um angulo de marmore, jazia a cinza do charuto de um outro, que estivera antes e se fôra. Jorge pôz-se a mirar em torno. Era luxuoso aquillo, cheirando a femea. Defronte da ottomana e por uma porta aberta, via-se um canto de toilette na penumbra: fórmas albas de cortinados e rendas, uma luzerna de espelho, e ao canto a psyché de marmore branco, em forma de concha. Quem pagava aquillo tudo? dizia Jorge para si.