—Entendo. Amanhã vamos ao arraial. O dia deve estar bonito.

—Olhe, vou de manhã. Lá a espero de tarde.

—Vá feito. Valeu. Faço os meus arranjos e vou depois.

—Adeusinho, adeusinho.

Desceu a escada. No portal gritou para cima:

— E obrigada por tudo, obrigadinha por tudo.


Não dormiu toda a noite. Uma turbulencia de idéas desencontradas agitava-a. Havia dentro d’ella alguma cousa explosiva que rebentava, que se dilatava com um volume maior que o do seu cerebro e do seu coração.

Tinha projectos, predilecções, vaidades. Iria comer petisqueiras de truz na frescura dos retiros, sob parreiras verdes, em quanto na encosta, lavadeiras batem roupa. Teria vestidos azues, de merino, ricos lenços de sêda com ramos, uma sombrinha e anneis, alguma cousa como uma opulencia.

A tia Palma não a reconheceria tão liró, feita uma rainha de Nantes com botas de biqueira. E mirava-se no espelho embevecida, desvanecimento pelintra, a admiração de si mesma. Surprehendia-se a murmurar baixinho—O meu João. O meu João está na officina. O jantar do meu João. Em o meu João vindo. O meu João sahiu.—E orgulhava-se: ter um homem, ter um amigo...