—Tres e meia! A derrocada tinha portanto sido ás tres, no dia 9 de junho de 1880.
O conde chegou a casa sem poder fallar. Nunca assistira a espectaculo mais grandioso. Nem o incendio do Banco.
Dias depois, um criado da quinta veio trazer-nos intacto o receptor que pudera salvar nas ruinas, e um bocado de papel onde estava escripto a punção, o seguinte telegramma:
«Paris 9, ás 3 da tarde. Completou-se em Paris a expulsão dos jesuitas. O povo assistiu sem protesto ao cumprimento dos decretos da Republica. Reina socego».
Pois que o povo era indifferente, a pedra quizera protestar derruindo, contra essa lei que afugentava implacavel, as tristes ovelhas do Senhor!
O Ninho d’Aguia
Na tarde anterior dirigira-me ao montado, cahia a noite. Uma contemplação profunda fazia-se em torno e o campo adormecia. Sobre as arvores, o céo concavo tinha laivos rosa, como sorrisos tristes de boccas que exhalam o ultimo adeus. Longe, por entre os caules seculares dos azinhaes e carvalheiras, uns acharoados de incendio ardiam em apotheoses fulgidas, sobre que os braços do arvoredo desenhavam em negro fórmas de estranhos esqueletos. Cahiam a prumo, d’uma banda e outra, fórmas de granitos aridos mostrando nos reconcavos e na profundeza lobrega dos barrancos, os primeiros phantasmas da noite com os seus capuzes de sombra derrubados na fronte, e um escorregamento de passadas mysteriosas—como de ronda sinistra que desemboca na quietidão d’uma viella, no silencio da noite velha. Ao centro do abysmo, a vereda serpenteava, corcovando a sua fita saibrenta por entre agglomerações bruscas de basalto e grés vermelho, d’onde os matagaes irrompiam como hirsutos cabellos d’uma cabeça decepada. Por sob a vegetação aggressiva dos espinheiros e zambujaes, uma linha d’agua corria, fazendo murmurios timidos de segredos trazidos de fraga em fraga—e essa queixa contínua e chorosa das gotas cahindo manso, acrescentava uma nota saliente á symphonia em surdina dos vegetaes adormecidos e dos ultimos ninhos em rumor. O montado começava d’alli a subir pelo irregular das collinas. Não podia enganar-me na marcha. Tinham-me dito—vaes pela vereda, chegas ao cotovêlo da rocha, á esquerda, sobes a encosta.
—É a ultima azinheira, tronco direito e vermelho, com a cortiça descascada. Leva corda para subires. Olhas para cima, aproximas-te sem fazer ruido, ouve bem—sem fazer ruido! Dás com o ninho logo. Quando a noite se fecha, a aguia chega, azas abertas, vôo circular e gritinhos alegres de boa ménagère que volta, com o dia ganho e um reptil no bico curvo, para os pequeninos esfaimados.