Eu decorára todo este itinerario, promettendo não esquecer a menor cautela, iria devagarinho, muito devagarinho, sem chapéo, descalço mesmo, olhando para cima e em direitura á azinheira de tronco vermelho e nú de cortiça. Tinha então doze annos, era rubro e selvagem, de grenha fulva, os dentes pequeninos e ralos, muito brancos, que erriçavam de gumes o meu riso escarlate e feroz—de korrigan vingativo. Achavam-me o orgulho de um rei e a pouca educação de um herdeiro presumptivo. Era de poucas palavras, vinham-me ao sol alegrias colossaes que transbordavam de mim como o rufo de um tambor extravasa da caixa de ar; todos os meus musculos amplos e duros na contracção, contornados nas linhas altivas de um athleta imberbe, amavam a lucta e se tonificavam na carreira. Passára até alli n’uma herdade, entre boiadas de que uma mansidão poderosa se abala glorificando a força, á rabeira dos arados, plena liberdade monteza, onde o homem regula as pancadas do seu coração pelo palpitar tranquillo da grande natureza que desabrocha em evohés hilariantes. Manhã nada já eu estava a pé, sentado á banca da cozinha com os ganhões da herdade, diante da açorda patriarchal que o alho impregna de odores vermifugos. Vestia como elles a camisola de lã, o largo chapéo de borla e os grossos sapatos cardados do agricultor, pião na algibeira, uma cicatriz transversal na testa, de pedradas antigas. Era imperioso e adorado; de resto abusava, dizia sempre—quero porque quero! Quando eu dormia, minha mãi ia beijar-me, e d’uma vez acordando sob um d’esses beijos, que são como nymphêas albas cahidas no marmore das epidermes frias, voltei-me e disse-lhe enraivecido:
—Os homens não se beijam, apre!
Queimava em podendo, as bonecas de minha irmã, gostando de a vêr chorar e de a fazer soffrer para me rir depois.
—Bem feito! Bem feito!
D’uma vez bateram-me. Em quanto eu berrava, o gallo cantando, fazia apotheose da postura recente de uma gallinha amarella, que desposára. Fui-me a elle e torci-lhe o pescoço.
—Para não mangares commigo. Toma!
A eira, diante do monte da herdade, era em plano inclinado, dura e polida, sem hervas. Deitava-me no cimo e vinha rolando até baixo. Nunca conseguiam trazer-me limpo—que tinha um odio insoffrido pelos fatos novos e pelos peitos engommados, considerando a gravata um traste inutil, de que me servia para amarrar chocalhos ao pescoço das ovelhas. Só annos depois acreditei que o mundo que eu não conhecia, o outro, fazia d’essa tira de sêda uma fronteira e perigosa—por muito infestada pelo contrabando.
N’esse dia, mal deram cinco horas e me apanhei fóra da escóla, deitei caminho do montado. Tinha á cintura uma corda de linho com azelha, para subir á arvore, e no bolso uma navalha de podar com gume de fouce. Todas as precauções foram por mim empregadas. Ao dobrar da rocha, descalcei os sapatos e tirei o chapéo. Metti a navalha no peito e desenrolei da cintura a corda. Depois, resolutamente dirigi-me á azinheira. Lá estava o ninho, era enorme e construido sobre tres pernadas robustas—como sobre os tres dentes de uma forquilha. Eu nunca vira coisa igual, a fallar sinceramente. Tinha o feitio oval de um berço e ficava tão alto, tão alto que fazia vertigens. Era preciso subir até lá. Atirei a laçada á primeira bifurcação do tronco, icei-me.
Depois, escarranchado na pernada mais solida joguei com o laço ás ramarias superiores e fui subindo. Á medida que me elevava, a ascensão entrava a difficultar-se: as folhas em tufos compactos prendiam-me os cabellos, os ramos oscillavam sob o peso do meu corpo, e de quando em quando soavam estalidos ameaçadores. Mas via já bem o ninho d’aguia. Primeiro havia um alicerce de quatro ou cinco ramos de sobro, cruzados; depois um leito de folhas seccas e pequenas hastes; sobre o leito, folhas macias de trevos, de tamuges e fenos—e forrando delicadamente o estojo, uma colcha de pennugens brancas que a aguia arrancava do peito, nos seus transportes de mãi. Com insano trabalho cheguei-lhe ao pé. Pulava-me o coração no peito, como um pinto no ovo de que nasceu, e qual não foi a minha alegria ao vêr aconchegadas no ninho, uma de encontro á outra, adormecidas e tremendo de frio, duas aguiasinhas implumes, disformes ainda mas de vigorosas proporções! Cerrára-se de todo a noite. Um claro luar com reflexos metallicos atravessava as vaporisações do arvoredo penetrando-as de uma poeira lucida de atomos scintillantes. Nas faias da ribeira, os rouxinoes faziam jogos floraes, arremessando-se os sonetos mais rhythmicos; o veio crystallino dos regatos ia contando ás folhagens humidas dos balseiros e canaviaes, uma lenda antiga de fadas azues e thesouros maurescos, narrativa muito em segredo, entre murmurios de beijos que ao longe mansamente se perdiam.
Dava trindades o sino da aldêa—e as aspirações pairavam n’aquelle calado ar, em que as borboletas reaes saltitavam traçando sinas de mulheres predestinadas. A lua na tela do céo esmaiado, lembrava com as suas ranhuras, a mascara da Comedia no panno de uma opera-comica, que a luz da ribalta illumina. Ergui os olhos—acabava de ouvir um grito. Vi a aguia pairar um momento por sobre a minha cabeça, de azas abertas, cujas remiges em cutelo sifflavam como as vélas de um moinho em actividade. Depois aquelle vulto negro desceu perpendicularmente, raivoso da minha audacia e estendendo o bico de gumes curvos, para me ferir. Agarrado á corda dei um salto abandonando o ninho, e fiquei suspenso da arvore um instante, a dez metros do chão pedregoso e batendo os dentes de terror. Que fazer? A corda por curta, não chegava ao chão. Deixar-me cahir era morrer. De repente porém, a enorme pernada deu um estalido secco, houve um attrito de folhas e lentamente vim baixando. Quando pousei no chão, com os dois filhos da aguia no peito da camisola e a navalha nos dentes, senti um prazer sem limites. Tinha destruido uma felicidade e praticado a façanha de subir á azinheira, sem outro auxilio mais que o de uma pequena corda nodosa e fina. Levaria os implumes para a herdade e creal-os-hia com carne e sangue fresco, de cordeiro. E elles cresceriam, alcançando as poderosas fórmas dos paes—bico adunco e corneo, a terrivel garra contractil, symetria elegante nas azas, que um jogo muscular movimenta com inexplicavel destreza. E pertencer-me-hiam, estariam na gaiola por minha vontade, comeriam se eu quizesse. Esta idéa de ter alguem sob a minha obediencia encheu-me de orgulho. Podia fazer mal sem ter medo das queixas que arrancasse. E vinham-me tendencias para opprimir, para espicaçar, para expôr á tortura. Tambem meu pai me batia! Que soffressem! Na azinheira, a aguia ia de ramo em ramo, soltando a cada investigação inutil, o seu grito melancolico. Corria as arvores proximas, voejava quasi á flôr do terreno, batendo com as azas nos tojaes da selva, e indo em todos os sentidos como allucinada. Depois abriu as azas horisontalmente com um pulo, susteve-se nas pennas como n’um pára-quedas, e com firmeza cortou o ar obliquamente, subindo á região das nuvens. De quando em quando, na calada do campo morto, o seu grito de mãi roubada ouvia-se na escuridade—como o silvo de um barco em perigo que pede soccorro.