A minha paixão d’aquella noite foram os filhos da aguia.

Persistia na idéa de creal-os—de os fazer gente, dizia eu. Tinham os olhos quasi fechados, com uma orla amarella e a nictitante espessa, meio descida. O pescoço nú offerecia um desenho esguio, andavam de rojo, dando pequenos gritos em busca da pennugem quente da mãi. Metti-lhes á força miolos de pão pelo bico, que elles bolsaram escancarando a guéla com carantonhas de uma graça infinita. Em seguida servi-lhes agua, mas recusavam tudo, os biltres, e se os deixava um momento punham-se a girar de cabeça alta, á procura do aconchego que não sentiam. Minha irmã que apesar do mysterio em que eu envolvia as minhas operações, conseguira espreitar o que eu fazia, trouxe-me então a idéa de metter as aguiasinhas debaixo da gallinha que na capoeira chocava os ovos que fôra pondo.

—Ella pensa que são já pintainhos, e as aguias vão crescendo, crescendo... E dás-me a mais pequenina, sim?

—Dá!... uma figa.

Quando nos mandaram deitar ás oito horas, tudo estava feito—a gallinha consentira em adoptar os dois orphãos e a coisa ia bem! Não pude dormir em toda a noite com a idéa nos pequenos. Se a gallinha os picasse, se os deixasse cahir do cesto!... Os gatos lançar-se-hiam furiosos contra esses dois desamparados e devoral-os-hiam, rosnando.—Applicava o ouvido: se ouvisse chiar saltava logo da cama. Quanto tempo levariam a crescer? Um mez ou dois—estavamos a quatorze. E contava pelos dedos—era tanto tempo ainda! Mandaria fazer um carro, que os filhos da aguia puxariam. E com que inveja ficariam os rapazes da escóla, vendo-me arrebatado pelos volateis, como esses deuses que representava o Manual Encyclopedico! No dia seguinte, ergui-me cedissimo, havia estrellas ainda. E mesmo descalço fui, pé ante pé, até á capoeira, para investigar do que havia. Os moços na eira, faziam já girar os bois na retraçagem dos calcadouros, e ouvia-se na altura o angelus vibrado pela cotovia. Acocorei-me devagarinho ao pé do cesto, estendendo as duas mãos ao longo da palha.

A gallinha dera signal, e cheia de colera, as pennas alvoroçadas, precipitou-se contra mim á bicada, implacavelmente, até me fazer sangue. Ás apalpadellas percorria a cama de palha em que os ovos se aninhavam; achára apenas uma das aguiasinhas. Diabo!...

Então, sem medo já que dessem por mim, corri a abrir a lucarna, e o dia entrou, humedecido pela neblina cheirosa da manhã. Estava apenas uma aguia, era certo!... Dei um berro de novilho marcado a ferro candente, que resoou por toda a casa. Queria a outra aguia por força, por força, por força! Queria-a, então? Queria a porque queria! Era minha, tinha-a eu achado, então? E como ninguem dava resposta entrei ao pontapé a tudo, ebrio de uma raiva sanguinea. E n’um formidavel choro rolava-me pelo ladrilho todo nú. Todo o meu grande desejo era que me attendessem e viessem todos surprehendidos, saber o que havia. A voz de minha mãi chamava pelas criadas; entrei a sentir nos quartos ruidos bruscos de sapatos que se arrastam e saias que se enfiam, á pressa. Já gritava menos, conseguira o meu fim, tinha incommodado e mettido susto a todos de casa. Era bastante! Agora, iriam todos procurar a minha aguia, haviam de m’a encontrar por força, ou arranjar-me outra novasinha em folha, como aquella. Apre!

Quando de repente me chegou o grito da mãi roubada, grito brusco e quasi surdo, como se o coasse uma larynge extincta. Toda a noite o ouvira, ora perto ora distante, e sempre com uma nota de ira impotente e supplicação desprezada, na tenebrosa calada do matagal. Fui para a lucarna instinctivamente attrahido, á escuta. Era um grito intermittente, primeiro muito fraco e repetido, como de alguem a gemer—gri! gri! gri!—; após, subitamente, essa voz dilatava-se, enrouquecia, fazendo quasi um bramido. Uma mulher não expressaria melhor a angustia, o desespero e a morte. Córava o oriente como uma epiderme sadia traduzindo a commoção d’um beijo; nas moradas dos ninhos, entre decorações de folhagens e caricias de poetica doçura, as familias de passaros, de melros, de pintasilgos, rolas e poupas, chilreavam felizes e singelas, deslumbradas na irradiação do céo.

Só ella, a aguia, ia chamando embalde pelos seus, através a vastidão egoista do ether, em que a vibração luminosa ondulava, e apunhalada no seu unico amor como essas crueis imperatrizes, que Deus castiga no unico ponto vulneravel da sua alma.