—Abre a cabeça de teu filho, disse o deus.

O homem tomou o machado de silex, chamou seu filho, e fazendo-o ajoelhar fendeu-lhe o craneo de um só golpe.

—Essa caixa de osso que partiste, é como a casca lenhosa de certos fructos tropicaes de que te alimentas. Partida a casca, esses fructos revelam a polpa delicada, de extraordinario tecido e exquisito sabor.

—Guarda esse fructo, disse o deus.—E após, com imperio:

—Abre a cabeça de teu pai! ordenou-lhe. O homem encontrou na toca do grande baobab o velho orango que lhe dera o sêr, acocorado e tropego, roendo talos. Deu-lhe as boas noites, pediu-lhe a benção como de costume, e quando o orango lhe estendia a mão lanugenta, sentiu na fronte o gume do machado que lhe separava o craneo em duas metades.

—Extrahe-lhe o fructo, tornou o deus, e o homem obedeceu.

—Bem, disse o outro.

E apontando cada um dos cerebros desnudados:

—Este é o cerebro de teu filho, este o de teu pai. Vês que é maior o do pequeno que o do velho, não vês? Agora segue com a tua unha estes arabescos mysteriosos que sulcam a polpa arrancada ao pequeno. Elles desenham o quer que seja de legenda em hieroglyphicos: é a buena-dicha da especie humana. São as circumvoluções, que mal se esboçam no cerebro do orango e que os teus levarão mais e mais profunda e profusamente impressas. Até teu pai o cerebro era alguma coisa tosca como o granito; de ti por diante elle lapida-se, depura-se e modifica-se—é a pedra preciosa, caustica na sombra e tenebrosa na luz, dotada de fulgor proprio e propensa a illuminar ao longe os tenebrosos recessos dos instinctos que herdaste e tens de transmittir suavisados e aptos á utilidade, pela cultura a que tu mesmo os forçarás. Corta-os ambos em pedaços e examina-os bem. São da mesma materia, teem identica fórma e parecem do mesmo valor. Mas um é o ferro bruto que o mineiro distilla do filão recondito, o outro é o ferro dotado de propriedades magneticas. Pódes chamar áquelle, carvão negro e torvo, se tiveres olhado n’este o diamante lapidado, que scintilla pelos engastes das tuas orbitas como se ardesse vívido na corôa de um rei.

—Comprehendo! disse o homem pensativo.