—Olha melhor esse miolo dos dois fructos descascados. Cada polpa se me afigura formada de lobulos ou espheroides. É como um continente dividido em nações pelos grandes rios, ou um paiz repartido em districtos, pelas grandes estradas reaes. Cada districto é a potencia que rege alguma determinada funcção do corpo—são as bossas. Ha a bossa da memoria, a bossa da intelligencia, a bossa da luxuria, a da gula...

E apontando cada proeminencia, o deus chamava-as pelos seus nomes. Algumas que eram salientes na criança, ou mal se esboçavam no orango ou positivamente não existiam[5]. Em compensação o cerebro do bruto tinha n’outras, um desenvolvimento colossal a respeito do pequeno. O deus fazia-as comparar miudamente, uma a uma.

[5] Faz notar Gratiolet, que as circumvoluções dos mais rudes primates são como o schema das circumvoluções do cerebro humano.

—Todas as que presidem á direcção de necessidades animaes, instinctos ou appetites, são consideraveis em teu pai, dizia elle ao homem. Todas as que se referem ao intellecto são de surprehendente grandeza em teu filho. Eis por que buscas alguma coisa mais na vida que a replexão do teu estomago se tens fome, que a ingestão de agua corrente se tens sêde, que o repouso se tens somno, e o coito brutal se a virilidade do teu sexo faz explosão ante a femea que passa, serva obediente da tua crueldade ou docil instrumento da tua lascivia! D’esse instincto, que a natureza instituiu para povoar os seus continentes e os seus mares, encher de rumor as florestas e de cardumes as aguas, instincto todo grosseiro nos que te são inferiores, tiraste tu os effeitos mais dôces, as symphonias mais limpidas, os mais castos threnos e as mais scintillantes volatas. Chamaste-lhe o amor, e crystallisando o amor transfizeste-o na adoração. Á femea escrava quebraste as algemas, não consentindo que os seus pés sangrassem, como os teus rudes pés de luctador, nos abrolhos da selva e nos espinhos da maledicencia. Da tua rude cabana fizeste um templo, da tua fé um lampadario, uma cupula da tua religião e da mulher o teu deus. No santuario do teu amor, puzeste o deus, e da cupula do templo o lampadario encheu de esplendores mysticos a tua familia e a tua alma. Pela adoração domaste a tua força, aprendendo a ser delicado para os fracos, altivo para os soberbos, cruel para os maus, justiceiro, generoso e valente! Estas qualidades deve-las á tua intelligencia, fluido singular que emana d’este lobulo—e apontava—e te destacou dos teus antepassados. Por essa faculdade, dominarás os elementos e os animaes, serás rei e senhor, porque o teu braço obedecerá sempre á tua cabeça. Cada geração receberá da anterior um patrimonio de idéas adquirido, entregando religiosamente á que lhe succeder, acrescentado pelos seus esforços, esse patrimonio sagrado e inviolavel. A tua ambição será satisfeita, descança.

—E serei eterno? disse o homem, tremendo áquella idéa.

—Na historia.

—Na vida! Que me importará a historia? Se poderei viver assim sempre, dominando mares e povos, e experimentando cá dentro esta plenitude de seiva que extravasa do meu corpo, e se desentranha em colossaes alegrias?

—Não! disse o deus com voz profunda. Morrerás!

—De que me serve então tudo isto? exclamou elle contrahindo a face serena, que uma graça infinita deificava. E erguendo os braços desesperado cahiu a chorar a mesquinhez da sua condição. O velho deus sorria.

—E qual a bossa, que no cerebro de meu filho corresponde a este horrivel veneno que a tua palavra me faz beber?