O deus apontou-lh’a, dizendo:

—Esse veneno chama-se a Dôr e nunca envenenou teu pai.

—Faze-me então voltar á nativa bruteza dos meus, disse o homem. Prefiro a inconsciencia rude do orango, a essa intelligencia que illuminando-me a vida me faz d’ella um ergastulo, e onde não poderei fazer um passo, bom ou mau que seja, sem que este tribunal interior, incorruptivel e soberano, me detenha se vou com pressa, ou bruscamente me acorde se adormeci, para me julgar do que eu fizer e para me castigar a toda a hora.

A voz do deus bradou:

—Jámais!

E desde então esse animal vaidoso, julgado o mais perfeito e o mais livre dos sêres vivos, tornou-se no miseravel escravo que eternamente geme sob o chicote do seu verdugo—esse verdugo que se chama: o Pensamento.

FIALHO D’ALMEIDA


CONTOS

PARTE II
A cidade do vicio