Carolina sentiu-se empallidecer. Balbuciou:

—Tens.—O seu desejo seria aventurar uma explicação, dizer o que succedera, afiançar a sua boa vontade, pedir perdão da sua simpleza selvagem; mas que vergonha!... Qualquer rapariga engommava, varria, sabia cozinhar, manter limpas as cousas, brancas as hombreiras, sadias de traça as roupas guardadas nas gavetas e nos bahús: e só ella, a burra nada sabia, aquelle grande cavallão! Tomou coragem:

—Olha, disse, e ficou-se; sentia-se palpitar.

—Que é?—Na calada a asthma do gato resfolegava.

—É que eu...—curvára a cabeça com a vista obscurecida de lagrimas. O João ergueu-lhe a cabeça com a mão, tomando-a pelo queixo, com carinho quasi.

—Que diabo tens tu, filha? Então! Que diabo quer dizer essa aquella?—E sem obter resposta:

—Se tens alguma cousa, Carolina...—e commovido, admirado:—mas offendeste-te do que eu disse ha pouco? Nem reparei, foi sem tenção de te magoar.—Beijava-a repetidamente, procurando chamal-a a uma tranquillidade conciliadora e a uma justa apreciação de palavras.

—Não vês que te amo tanto, hein? não vês? Uma pessoa, ás vezes, nem repara nas cousas que diz; vês tu?

Ella abafava soluços, com o lenço.

—Não é nada, não é nada: isto é do meu genio a modos tristonho, dizia ella; que eu bem sei que não sirvo para nada, bem me conheço. Para que serve um diabo assim?... Nada sei fazer, nunca tive quem me ensinasse, por minha desgraça! Até nem roupa...