—Cada qual governa-se, sentenceava ella.

Os primeiros dias correram-lhes distrahidamente, nas espiras d’um amor canino e deshonesto.

O João apparecia tarde na officina, cheio de somno e de fadiga. E soffria as meias palavras do Ferreira, a sua grosseira rabugice de velho rigorista, via-o atirar as cousas com mau modo, girar nervosamente por entre os bancos de trabalho com o olhar relampejante através dos oculos. Para o aprendiz, o melhor tempo era o recolher do trabalho, ao cahir da noite: ia quasi a correr para casa, subia a escada a quatro e quatro; Carolina estava de ordinario costurando, com um casibeque de lã, lenço na cabeça, a face de uma pallidez transparente e dôce. Elle tomava-lhe delicadamente a cabeça, com as duas mãos; beijavam-se com uma sofreguidão provocante, e toda ella vergava languidamente no peito do aprendiz, sonhando as divagações mais sublimes. Nunca sahiam, senão noite feita. Diante d’uma mulher, o João experimentava um aconchego tepido, delicioso: com ella, a sua força, a sua fórma vigorosa e superior, acobardava-se, quebrantava-se, cahia: era então dos sentidos. Não se lembrava de olhar em torno de si, no desleixo da casa nua, repartida em compartimentos baixos e rectangulares, sem luz e esfolados nas hombreiras, com laivos d’oca barbarescos no rodapé. Pelas paredes encostavam-se moveis antigos e côxos; leitos de ferro de varaes tortos, tinham colchões extirpados e cobertores de uma farrapice sordida; em volta nem um objecto limpo e cuidado, nem uma côr alegre e rutilante, em que a vista pascesse uma satisfação honesta; todas as fórmas duras e cruas das cousas tinham um desleixo antigo, de annos, e desmantelavam-se como bem lhes parecia. Pelos aspectos, via-se a historia de Carolina, a sua orphandade, as ausencias do coveiro na desolação das covas, como um desterrado. Na cozinha, a chaminé derruia lambida da fumarada, cheia de terra e tijolos partidos, abrindo como uma guela calcinada e pulverulenta. Têas d’aranha, espessas e papudas, faziam prateleiras aos cantos. N’um poial humido e cheio de covas, rimas de pratos sujos, de almoços antigos, estavam para alli de semanas; sobre o peito da janella, uma palmatoria de barro tinha um coto de sebo; a miseria enrodilhava-se pelas cousas, n’uma frialdade canalha e vilissima, em que se accusava uma existencia sem destino, sem direcção, sem o exemplo d’outra. Nenhum movel no seu lugar, o lavatorio vazio, uma bacia n’uma cadeira, saias enxovalhadas nos ferros dos leitos e o gato lambendo-se sobre um chale. E á medida que passava o tempo e os dois conviviam, Carolina que no começo por pudôr, fôra um pouco cuidadosa, entrou a entregar tudo ao acaso, para alli, ao deixa-te estar que estás bem. Em quanto só, era ella quem lavava a sua roupa, de mez a mez. Quando o João se ligou com ella, foi impossivel continuar aquillo. Eram precisas camisas engommadas, roupas, lenços brancos, quem costurasse, quem cuidasse com amor, sem fadiga, sem mau estar, todos os pormenores do lar e todas as pequenas necessidades do trajo. Carolina nunca engommára. Foi perguntar á Marcellina como era. A velha deu explicações: que se molhava primeiro a roupa em gomma fervida, com um trapinho, e depois se punha a enxugar muito bem, a enxugar... Carolina lavou corajosamente as camisas do aprendiz, mas não ficaram brancas—que birra!... E resignada aqueceu o ferro, pôz em pratica quanto ouvira da velha; mas o ferro tostou-lhe o pano deixando uma nodoa escura e fumegante; ella ficou toda desconsolada, lacrimosa, temendo ralhos, quando o João viesse. Fazia um mez que se tinham visto no arraial. E Carolina reflectindo, comparava os dias á medida que elles se distanciavam do primeiro: as cousas não são algumas vezes o que parecem; nem tudo o que luz é ouro—lá diz o rifão. Era verdade! E entristecia-se. O jantar foi menos animado que os anteriores. O João não tinha vontade, era sempre a mesma cousa... E em conversa disse os seus pratos mais predilectos, em que havia mexilhão, cabeça de porco, refogados. Ella estranhou a palavra.

—Refogado! disse sem perceber bem. Olhava o tecto—Refogado!

—Sim, não sabes? fez elle admirado d’aquella ignorancia. E pôz-se a dar explicações, a dizer como era. E d’alli a pouco:

—Em cousas de cozinha, a modos que sei mais que tu.—E sem mudar de tom:—Diabo! Que te ensinaram então?—Carolina resentiu-se um pouco. Estiveram distrahidos n’essa noite; queriam ambos disfarçar, ter excessos, exuberancias, brincadeiras, pequenas ternuras piegas, mas de repente esqueciam-se, e paravam sem saber porque, absorvidos. Elle perguntava-lhe:

—Em que estás pensando?—Carolina encolhia imperceptivelmente os hombros, um meio sorriso sem expressão.

—Nada.—E ao acaso:—em meu pai. Porque perguntas?—Estiveram assim. Viam-se os seus esforços para entabolarem palestra e parecer como nos outros dias, mas um tedio e uma contemplação intimas dominava-os, atraiçoando-os.

—Ámanhã é domingo, observou Carolina. E com admiração:—Já ámanhã é domingo, hein?

—É verdade, perguntou elle, tenho roupa?