Disseram-lhe depois que a mãi morrera, e a sua vida mudou. Nunca mais foi visto no sitio nem tornou a levar ao velho o Noticias, todas as manhãs. Dormia nas escadas, de manhã vendia os jornaes, o resto do dia passava-o nas ruas, sentado pelos bancos das praças, dormitando canalhamente ao sol. E a suavidade de genio, a doçura implume dos seus olhos derivaram n’uma rispidez, n’uma malicia de garoto.
Entre os da sua idade começou a ter predominio; era o das partidas subtis, o que commandava as troças que o bando fazia aos velhos, o que ia gritar nas escadas, o que armava intrigas, desenvolvia contendas, e nos magotes repartia sôccos e pontapés, no meio da grita e das risadas dos taberneiros. Durante dois annos viveu esta bohemia das ruas, tripudiando no meio infimo a sua turbulencia e a sua alegria. Ás vezes tinha fome: ia pedir nas ruas escuras, com o barrete na mão, a quem passava. E o seu coração soffria todos os maus modos e todas as humilhações, sem rebeldia. N’esta senda privou com os incorrigiveis, conheceu os mendigos, os gatunos e as velhas de capote verde, sem meias, que esmolam nos adros das igrejas, em lamentações dolorosas. Uma vez a policia entrou n’uma casa de malta, na vespera de uma parada, e varreu quanto lá achou para a prisão. Os pequenos foram mettidos na Casa da correcção e os gatunos no Limoeiro, por contas antigas. Sentiu duramente o carcere, e sinceramente chorou a vadiagem dos antigos dias, em que o seu pé vivo, forte e agil, pisára livremente as ruas em corridas ruidosas, em pandegas de boa marca. Na reclusão, os seus dias medidos por occupações sujeitas a uma tabella e a um horario, foram enlutados no tedio e no sentimento da propria inutilidade: levantava-se antes de nascer o sol com os demais companheiros estremunhados, tiritando do frio que ao longo dos corredores se esfusiava cantando; um sino batia horas acima das abobadas, e o echo ondulava de cella em cella, como o soluço de uma alma penitente, a quem não perdoam; pelas profundas janellas do antigo convento, pedaços de céo faziam manchas lucidas, de espiritualisação ineffavel, em que o olhar dos pupillos se dilatava com grandes tristezas de opprimidos. Caminhavam formados dois a dois para a capella, á oração da manhã. Depois cada um ia para a sua officina, ou para a aula de estudo. Os rudes prefeitos passavam lugubres, lividos e cheios de consumpção, e os seus olhos ferozes corriam sobre as cabeças humildes dos rapazes, curvadas sobre os livros ou sobre os trabalhos de officina. Aos domingos ouviam missa; uma charanga tocava no pateo e os jornaes convidavam o publico a ir vêr o collegio, louvando os desvelos do director e proclamando os resultados da instituição beneficente. Alli tomou elle proposito, aprendendo a ter aceio, correcção e aprumo; aos dezoito annos o Ferreira tomou-o para aprendiz: era já uma pessoa cheia de si propria, estatura avantajada, completamente formada, que passara incorruptivel no meio viciado do hospicio, resistindo aos vicios morbidos e fataes da caserna, e salvo n’uma palavra, da ociodade e do desprezo de si mesmo.
Resolveram encontrar-se, o João e Carolina, todas as noites, á hora em que fechava a officina: iriam passear, fallando dos seus negocios sem temer ditinhos da visinhança. Elle instára vivamente para que se ligassem; era assim melhor, não soffriam tanto as saudades da ausencia e estariam á vontade; e se a coisa tinha de ser, que fosse quanto antes. Carolina lutava um pouco; todos os seus cuidados eram o pai; quando elle chegasse a casa e os visse, que diria? E supplicante, uma meiguice infantil, obrigava o João a ceder, com pequeninas caricias voluptuosas e finas. As noites eram frias e escuras, orvalhadas no alto de scintillações de estrellas, archipelagos de luz n’um Pacifico lobrego e sem fim. Reuniam-se a uma certa hora no largo da Estrella, e de braço dado, estreitamente unidos, com declarações pelintras empoladas de palanfrorio sem nexo, diziam um ao outro o seu amor eterno, citando cantigas, pequenos versos de manjarico, procurando a sombra, desviando-se das zonas claras projectadas pelos lampeões, como proscriptos cônscios da sua culpa. De ordinario vinham por S. Pedro d’Alcantara, S. Roque, até ao Chiado. Áquella hora as ruas atulhavam-se de gente abafada em capotes felpudos, carruagens cheias de mulheres melancolicas; um largo ruido emergia da luz, da vida e da enorme respiração da cidade, espapando-se nos ares n’um tom indistincto e abafado. Á porta da Havaneza um forte grupo enchia o asphalto; caras em sombra sahiam das golas altas; de todos os lados partiam rumores de palestras que apanhadas de relance, davam a diversidade mais curiosa e frisante; marialvas pallidos e bonitos, altas pernas apertadas em calças prenhes de joelheiras, chupavam cigarros em grupo, provocando as costureiras que recolhiam dos armazens; militares seccos, sonoros de esporas, uma curva de espinha, discutiam ás esquinas. Á porta da casa Singer, destacando em sombra na crua luz irradiante do lustre, um conego forte e barbeado, envolvia-se na sua capa, baixo perfil de javardo estupidamente grave. D’um lado e outro, a fileira de transeuntes seguia, gente de todas as castas, mulheres embuçadas em mantas, rapazes debeis e palreiros, velhos dilettanti da opera que faziam a digestão com charutos fortes; ao trote de grandes parelhas, as familias iam para S. Carlos, recostadas nos cochins dos coupés; e Carolina invejosa da vida que não vivia e da opulencia que a deslumbrava, ia picando as scenas de commentarios amargos, um vago rancor de proletaria. O João murmurava de quando em quando:
—Isto é o tom, isto é o tom!—Gente pasmada parava diante das vitrines do Seixas, admirando oleographias, porcelanas, pequenas esculpturas suissas. Defronte quasi, no Elie Bernard, as amas de toucas de renda apartavam polichinellos, pequenas arcas de Noé, para frescas crianças de banqueiros, aconchegadas de arminhos e louramente ideaes. No Leonel, as senhoras de cauda princesse, perfis orgulhosos de marquezas, pallidamente altivas, viam setins da estação, fortes velludos de pregas electricas, opulencia cara. Sentia-se apregoar o Jornal da Noite. Divas de mantilha marmoreas de riz, elegancias de figurino, vendiam-se a quem passava, com pequenas tosses e psts! Elles atravessavam a multidão, isolados no ruido como estrangeiros. A rua Nova do Carmo tinha menos gente, menos luz. No fundo do Margotteau, uma luz soturna agonisava sobre estofos amontoados, pilhas de cochins, bancas de jogo marchetadas, e brilhos de lustres, pendentes do tecto. Sobre o Rocio cahia a cupula tenebrosa da noite, como um assombro legendario; em D. Maria, acima da arcada, pontinhos de gaz escreviam espectaculo; em torno da praça rolavam os trens; soldados risonhos saracoteavam-se na penumbra entre os grupos de velhos celibatarios; o Martinho estava cheio de estudantes e de litteratos; e contractadores de senhas, cauteleiros e americanos em marcha faziam um ruido infernal e continuo, o tohu-bohu das capitaes exaltadas pela nevrose da noite. Elles iam seguindo vagarosamente. Fechavam as lojas. Chegavam de ordinario a casa muito tarde. A visinhança dormia. No relogio da Estrella badalavam quartos, som lugubre. Passavam a noite amando-se, jurando a si mesmos fidelidades eternas e amores phenomenaes, em quanto a vela de sebo posta a um canto, deitava clarões amarellos e um cheiro suffocante de morrão.
Afinal o João fez conduzir para casa da rapariga o seu bahú, os seus arranjos. A visinhança fallou do escandalo, nunca se vira uma pouca vergonha assim, o mundo estava perdido.
Muitas diziam:
—Já a comadre bebe! Mas deixa que o pai saberá...
Só a Marcellina achou natural.