E de mãos postas:

—Pela sua saude, por alma dos seus defuntos!—E com um desespero explosivo:—Ora isto! ora isto!—Levava os punhos cerrados aos olhos; um choro dilacerante abalava-o. Tomou as mãos do guarda:—Só pedir-lhe a benção, meu senhor; vou-me logo embora, vou-me logo embora!—Essa alma dura do velho, verteu compaixão.

—Mas não pódes, não tenho ordem, percebes?—E dava razões:—ella estava com causticos, com una emplastos na espinha; tinha acabado de tomar o remedio; era um banho forte, que fazia dormir. E que bem tinha visto pelo oculo, pois não era verdade? Não lhe tinha visto os olhos fechados? era somno, está claro! E que se queria vêl-a boa, não a fosse agora acordar, a pobre velhota. Percebes?

—Ámanhã vens tu aqui, entendes?—de manhãzinha cedo, e talvez já ella esteja capaz de te vêr; entendes? Pois isto é que é.—Elle de cabeça baixa, reflectia.

—Vossemecê não me engana, não? Sou um pobre de Christo, vivo dos jornaes; não vê?—E apresentava a pasta. O guarda compadecia-se.

—Não engano, homem: para que te havia de enganar? É boa!—Armava no rosto uma sinceridade benevola e rudemente ingenua. O João sahia vagaroso.

—Então ámanhã, meu senhor. Adeus. Seja por alma de quem lá tem.—Ao fundo dos degraus deteve-se para voltar a cabeça. E ficou-se a murmurar pensativo:

—Mas quando uma pessoa está doente, não apanha ar. Alli teem as janellas escancaradas.—Ia devagar, embebido, com os jornaes na pasta.

—Elles sempre são cirurgiões, disse, entendem mais que um qualquer.—E a espaços:

—Então ámanhã. Hei-de-lhe contar que estou muito obrigado á visinha; nem que fosse minha mãi.—E chegou á rua, ergueu o pregão. Todo o mundo era feliz e sorria. Ninguem reparava n’elle.