E dirigida pela alcoviteira, começou a viver só.

Desde esse dia, as aventuras vieram-lhe por centenas. Conheceu todas as especies de homens a quem se impingia ás horas, por baixo preço. As gengivas tinham-se-lhe descarnado, pintava os beiços com carmim e para o giro da noite cobria-se toda de pó d’arroz. Forçava-a a profissão a pequenos sacrificios, no intento de agradar aos que a buscavam. Comprimia os pés em sapatinhos altos, golpeados no peito para deixar vêr a meia de côres.

Apertava a cintura e os flancos com espartilhos que a estrangulavam em duas metades, deixando-lhe o thorax afunilado e hirto, o figado oppresso e a respiração entrecortada. Á hora dos theatros, quando nas ruas da cidade baixa fervilha inquieta a multidão dos que digerem, e giram buscando par os velhos viciosos e os rapazes definhados, ella descia do seu bairro obreiro mais a Jeronyma, paramentadas ambas de arrebiques pelintras—á pingadeira, como lhe chamavam. Tinham horror á policia, procuravam as sombras da rua chegadas uma á outra, e olhando quem ia com o riso postiço das rameiras de profissão. A espaços, automaticamente quasi, segredavam aos homens amabilidades sordidas, desenrolando toda a giria do officio.

E ao pararem para apertar as mãos dos cocheiros e dos trolhas circumvagavam a vista de um modo inquieto a vêr se—andava algum.

As noites assim passeadas até deshoras fatigavam-nas de morte. De manhã nem se podiam mexer, uma paralysia de musculos, as articulações endurecidas, um travor na bocca saburrosa, das más digestões desordenadas. Succedia por vezes amanhecer-lhes pelas escadas, no outro extremo da cidade, ou nas hospedarias de má nota onde vão anichar-se as ultimas excoriações da torpeza. Expulsavam-nas então com o nojo que nasce da saciedade, escada abaixo, sem lhes pagarem muitas vezes.

Se retrucavam, era sempre a mesma ameaça que as ia fazer calar—a policia e o livrete. Aquellas duas palavras punham-lhes baques nas fontes, suores de rins e um calafrio mortal pelo dorso.

Na rua, os dichotes dos vendilhões e dos gallegos cuspiam-lhes na face obscenidades de tremer. Riam-se, retrucando algumas vezes. Mas a humilhação era frisante e seguiam sempre sob o terror da chacota ou da prisão. A indolencia de Carolina era agora mais refinada que nunca, deixou de ir á fabrica, passava os dias na enxerga da pocilga, dormitando.

E d’uma vez teve fome, sabbado por signal. Contrahira já os ultimos vicios supplementares da devassidão, fumava, bebia, e nas tabernas em estando bebeda punha-se a dizer com voz rouca fados ignobeis, no meio dos cocheiros excitados e ao som dorido da guitarra.

Os velhos appeteciam-na de preferencia, pelo seu ar moço e pelos seus cabellos ruivos. Havia um coronel reformado que lhe dava dinheiro para sapatos catitas. Era um velho gordo, de oculos, todo grave na sua sobrecasaca preta. Gostava d’ellas bem calçadinhas, meia esticada, e começava sempre pelo pé, acariciando-o de diminutivos ternos.

Era o seu melhor amigo, aquelle senhor tolerante, e d’uma vez desapparecera. Vieram os maus dias então, a policia vigiava as casas de má nota, e prendera a Jeronyma uma noite...