—Seja louvado Nosso Senhor Jesus Christo!—E todos largavam o trabalho, tomavam os seus chapéos, os seus chales, os seus capotes; na escuridão do corredor estalavam beijos, pares canalhas escorregavam nas escadas, havia gritos, e a chusma em tumulto, n’uma desordem vadia, atulhava rapidamente o pateo, combinando cêas, encontros, relações impuras. Foi a vida melhor que Carolina viveu. Aquella grande liberdade, infiltrára-lhe uma alegria espontanea, uma grande destreza, um vigor manifesto. Ganhava dinheiro além d’isso; cabida nas graças do fiscal, obtinha sempre uma feria bem favorecida, sua gorgeta para alfinetes. Teve a partir d’aqui, pelo menos, uma duzia de amantes, amantes de uma semana, de um dia, preferidos á noite, esquecidos no dia seguinte, e concorrendo todos para a sustentação d’um luxo que pouco a pouco se ia manifestando em Carolina. Um domingo appareceu em casa da alcoviteira, toda penteada á moda, com um chapelinho de fitas verdes, um casaco bordado de contas, meia de riscas, leque. A velha discutia com duas raparigas o preço de um vestido de fazenda, que mostrava com largos elogios.
—É um ovo por um real, minha rica, dizia.—Um vestido como novo!
—Mas seis mil reis é muito bom dinheiro, santinha!
—Pois olhem que da peça é o triplo do custo. Agora façam lá o que quizerem.—E voltada para Carolina:
—Viv’ó luxo! Viv’ó luxo! Vaes óservando que eu tinha razão no que dizia.—E com insistencia:—tendo tino não ha cousa melhor, meu anjo.—E baixo, tomando-a de parte:—E elle?
Carolina encolheu os hombros desdenhosa, um ar de desprezo. A velha disse-lhe ao ouvido:
—Quem paga a renda da casa?
—Meu pai. Ha dois mezes que o não vejo, por tal signal.
—Pois filha, se o João não te serve para nada que se ponha ao fresco, quanto antes. Primeiro, o teu governo.
—Sim, sim, disse ella pensativa.