N’essa noite o João entrou a deshoras; cambaleava de bebedo, cantarolando todo cheio de terra, como quem tivesse cahido pelas ruas, á porta das tabernas. Ella viu-o chegar sem se mostrar surpreza, como quem esperava mais. Mas disse ao metter-se na cama, estas palavras sem nexo:

—A fabrica...

E com um movimento imperceptivel de labios:

—O collegio...

E ficou a pensar, immovel, com os olhos fitos na luz.


Estas duas palavras representaram d’alli em diante o seu destino, guiaram-na por um caminho espinhoso que sonhara ridente, em horas de contemplação e plenitude.

Ao João era manifesto o tedio d’aquella vida e o mau estar d’aquella união. Pouco a pouco, com transições insensiveis, as palavras d’elle adquiriam notas asperas, grandes phrenesis inesperados, uma taciturnidade crescente, moedora e constante. Ella experimentava por seu turno uma altivez ferida e rebelde de mulher espesinhada e esquecida por outra; em certos dias estrangulava de raivas surdas em que resfolegava a espaços, a ancia de humilhar, infamar, perder alguem; fazia arias estrondosas pelas casas fóra, garganteando pelintramente como no theatro; mas a noite vinha gradual; ficava logo invadida mortalmente de uma grande tristeza, de uma inexplicavel passibilidade indifferente ao estimulo, dominada de presentimentos e architectando toda tremula futuros famintos, esfarrapados e enfermos. Não passava uma tarde sem vêr a Marcellina; juntas, parolavam durante horas, desenrolando planos mysteriosos e discutindo futuros. A velha revelava pormenores de officio, as subtilezas de que lançam mão certas mulheres, o segredo de provocar, chamar, sorrir, andar na rua, mostrar as riquezas do busto, conservar a face rosada, mesmo depois de uma noite de orgia. Carolina reagia com monosyllabos apenas, a esta insinuação torpe; mas abandonada pelo João, a fallar a verdade, que faria? Foi assim que ella determinou entrar na fabrica, em Alcantara. O João não oppôz resistencia; via o meio de afastar aquella rapariga importuna que o estorvava nos seus projectos, nos seus namoros. Ia todas as manhãs muito cedo, com o seu passo miudo e rapido, saracoteada e risonha, com a sua manta de borlas, uma capa de escocez verde, saia de folhos, o lunch n’um cabazinho da Ilha. No caminho encontrava as companheiras, moças alegres e desembaraçadas, cheias de risos, largando chalaças de mordacidade equivoca. E iam todas por alli fóra. Os merceeiros dirigiam-lhes afagos perfidos, apupavam-nas os gallegos sujos, os estudantes e os soldados. Que pandega! Respondiam a tudo com grandes risadas bebedas. Uma então, a Jeronyma, trigueira, a face picada de bexigas, até dava encontrões nos policias, piscando os olhos: e todas se divertiam a valer. Á entrada da fabrica, os operarios davam-lhes abraços, com grande intimidade; tratavam-se todos por tu, com uma algazarra incorrigivel, até que o fiscal, de barba branca, o seu casacão amarello, um cachimbo preto de nogueira, abria as portas da officina. No corredor, os operarios dividiam-se em turmas; uns iam para o empapelamento dos cigarros; outros iam picar o tabaco; alguns cortavam rotulos para as caixas de charutos. Se o borborinho crescia em torno das longas mesas de trabalho, o fiscal erguia a voz:

—Nada de algazarra! Parece que estamos n’alguma feira!—E todos fallavam baixo, contando historias pagãs de gente sem vergonha, de uma sordidez de viella. Sem grande esforço Carolina aceitou estes habitos que se lhe afiguravam de uma naturalidade legitima, tão sincera e tão commoda. Affeiçoára-se á Jeronyma, participando das suas opiniões, dos seus ditos, da sua fama. Ao escurecer o fiscal dizia, dando uma grande palmada na mesa: