Quanto de vós tenho dó!...
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Carolina de cabeça um pouco erguida, tinha ficado a escutar; toda a gente ria quando ella chorava!... Em que coração acharia interesse?—E via de pé a sua desdita envolta em fumos negros, olhal-a cheia de rancor inquebrantavel. Queria recordar-se da sua meninice, como quem se refugia, mas diante d’ella desfilavam recordações lugubres, surgiam grupos de mortos, filas de cyprestes, um coveiro encanecido que erguia a enxada, cantando.
Não tinha a menor idéa do que fosse ter mãi ou ter amigas. No seu contacto com a gente, entrevira apenas o tenebroso fundo de bestialidade que referve em cada homem, com um fragor de luxuria cruel. Vivera sempre em si propria, sem a reminiscencia de um carinho que alma piedosa lhe houvesse prodigalisado. Quantos beijos deixára roubar aos moços do cemiterio e quantas palavras tinha merecido aos gatos pingados, todas vinham hervadas da mesma idéa e do mesmo intento. E assim crescera n’aquella incultura de espirito sem guia, sentindo dentro avigorentar-se-lhe apenas uma tendencia—a da cadella fertil, que vai entregar-se. Através da sensação rudemente nascida olhára o mundo, esfaimada e torpe como se fôra um verme descommunal das sepulturas, incapaz pelos desolados scenarios que tinha contemplado nos seus dias de criança, de dar accesso na sua alma ás multiplices emoções e susceptibilidades hystericas, que fazem da mulher o precioso receptor das cousas mais subtis, que a lingua não exprime e os olhos mal sabem formular.
Tinha-se dado ao primeiro que chegára, sem condições e sem receios de pudor. Fôra a Marcellina a causa de tudo. Para que lhe viera contar de padres babosos e varinas amancebadas?
E detida, conscia de um desalento mortal, sentia na penumbra os olhos de Marcellina, cahidos sobre a sua cabeça com um brilho fatidico. Fóra, riam com estrepito no meio de disputas sordidas. A velha tomou-lhe a mão, aproximaram-se ambas da janella.
—Queres um conselho mesmo cá de dentro, queres?
—Que é? fez a rapariga.
A outra estendeu o braço na direcção das janellas de taboinhas, e o seu dedo engelhado apontou as cabeças de altos penteados, que destacavam com relevo negro no tom vermelho dos quartos alumiados da casa fronteira.
—Olha, disse ella. E com gesto de quem se impõe, de quem se mette por uma pessoa dentro:—Lembra-te do que te digo hoje.—A sua voz insistia, escolhendo os tons persuasivos, dôces, sinceros, e ao mesmo tempo as suas palavras discretas, ditas no fundo d’um segredo, vinham com uma intenção perfida, cheia de depravação. Carolina ficou hirta perante aquellas insinuações, olhando com os seus olhos cheios de febre, a cara franzida, esperta, d’essa megera que dominára o seu destino impellindo-a na perdição e apontando-lh’a como um fim logico, consequente e feliz. Grandes desvairamentos pulavam-lhe no craneo, exagerando-lhe os sons, tornando-lhe as figuras sarcasticas e as sombras lugubres. E as fontes pulavam-lhe, como molas premidas que reagem; e o seu espirito dilacerado de afflicções saturava-se de alguma coisa estranha, como o indifferentismo ou a idiotice.