—Ora historias, filha, historias!—E sentenciosa:—Que n’isto de vergonha cada qual toma da que gosta. Em se evitando fallas do povo, deixa andar. Dois dias que a gente anda por cá...—E generalisando a doutrina que prégára:—se vamos assim, então não ha ninguem de vergonha no mundo.—Carolina abanava a cabeça. A velha com ademanes de mestra, cuspia-lhe no animo a sua piedade de estafermo.

—Ainda estás muito verde, minha rica! dizia.

Cahiram em silencio. Ás vezes soluços fundos, estrangulavam a garganta da rapariga.

—E eu que cri em tudo! lamentava ella.

—E não queres vêr? Eu iria pôr a mão nos livros sagrados. Não me salve, se julguei que succederia isto.—E com voz cantada:—vamos nós agora a vêr o fio da meada. Como diabo sahirá elle d’esta?

—Como sahirá? casando com a outra. Vejam como. Lá tem o irmão que a defenda. Só eu não tive quem me aconselhasse.—E desfazia-se n’um choro intimo, dizendo a sua infelicidade.—Morre quem faz falta, só Deus me não chama p’ra si...

Havia tempo que homens altercavam na rua, entre sons de guitarras. De repente, uma voz avinhada disse um fado choroso, em que se despediam almas e se davam facadas, em verso. Rameiras de grandes caudas de gomma riam com estrepito, dizendo doçuras roucas, de uma vadiagem canalha. Carolina gemera:

—Ai vida, vida! Só aquellas nunca estão tristes!

A velha tinha-se erguido, interessada na algazarra da rua, curiosa de espreitar a pandega como um antigo commensal expulso. A voz dizia:

Pobres donzellas honradas,