—Vejam as habilidades do Santo Antoninho de quinta, hein? Ahi está para que elle se empenhou tanto commigo, para chegar á tua falla; vês tu?—Atafulhava as ventas de simonte. Carolina ficára morta de surpreza, de terrores, e desesperação.
—A minha desgraça! repetia. A minha desgraça!...
—Quem me contou tudo foi a Mathildes, uma que engomma para fóra; eu estava mesmo parvinha de todo, nem o queria crêr, vê tu lá. A gente vê caras não vê corações: é certo. E para mais é todo amigalhaço do irmão da dita pessoa; andam sempre de sucia, grandes chalaças, sim senhor; franquezas de tabaco; para onde quer que vão, vá de vinhaça, comes e bebes, com toda a grandeza! Ai! hoje presentemente, minha rica, nem uma creatura sabe para o que está guardada. Algum dia em acontecendo uma d’estas, parece que até ia tudo raso. Havia justiças, muita obediencia; então com quem brincavam elles? Hoje... Eu até fiquei sem vontade de comer: t’arrenego! e depois veio-me a dôr.—Dava um estalo com a lingua.—Mas deixa estar, que t’o cantarei.—Carolina nem ouvia.
—E agora? disse ella com um gemido, atirando-se com uma grande angustia sobre os colchões, miseravel na sua decepção.
A Marcellina tentava fazel-a sentar, compondo um rosto compungido. E dizia a espaços:
—Ó filha, pelo amor de Deus! Isso não é agora morte de homem. Ha muitos modos de governo. Estavamos servidas se fossemos agora a morrer por todos os malandros que se raspam, em nos apanhando.
E como achando o modo de tudo solver, em quanto a outra chorava:
—Olha, pódes-te empregar na fabrica, dois tostões por dia; leva-se lunch.—E muito baixo:—para quem quer reinar, nada melhor.—Piscava o olho:—percebes, percebes?—E desenvolvia projectos, propunha expedientes.
Encontras logo arranjo; nas fabricas então é como passastes. Conheço lá muitas que andam alli mais estimadas, que eu sei; ellas bem vestidas, bem doiradas, arranjo de seu, alli o jantarinho de carne todos os dias...
—Gente sem vergonha! commentou Carolina, com voz cantada pelo pranto.