—Queres tu experimentar as cartas? A vêr o que dizem.—Carolina estremeceu.
—Credo! Tenho medo.—E mais baixo:—Dizem que apparece o diabo!...
Ficaram caladas. E depois:
—A mim, ninguem me tira da cabeça que o João anda de olho com alguma gaja.
Puzeram-se a fallar no tempo. Marcellina ergueu-se para sahir.
—Se elle te não quizer, filha, não morrerás de fome por isso. Graças a Deus, em quanto houver homens, qualquer mulher se governa. Tive muito d’isso, tive. Ai!... Tomára-me n’esse tempo!—Desceu a escada. Á porta observou, piscando maganamente o olho:
—Não fui das que gozei menos, não. Que até condes beijaram este palminho de cara. Ai! Bom tempo!—E serviçal:—Eu indagarei, eu indagarei a cousa.
A rapariga não dormiu n’essa noite. Ergueu-se inda lusco-fusco, cabeça pesada, uma fadiga enorme nos membros. Sentia que a sua vida oscillava na noticia que a Marcellina trouxesse, como n’um fulcro de aço uma agulha magnetica. Ao meio dia de feito, a velha voltou, olho arregalado, agilidade de alcoviteira no andar, rebolando-se, co’as barbicas assanhadas.
—Sabes tu, sabes tu? Vai todas as noites ao Moinho de Vento palestrar com uma sirigaita do primeiro andar, mesmo á esquina do pateo, por cima da loja de louça. Está alli horas ao relento, a tomar argarejos: só com uma carga de pau!
—Por isso elle vem tarde!...