Então foram todos vêr a casa do Jerolmo, batendo fortemente os sapatos de trabalho. Algumas mulheres atemorisadas, de chale pela cabeça e em grande abatimento, seguiam Joanna resmungando lamentações. Em breve a terra estava em alvoroço, e quando a pobre rapariga chegou á soleira a rua ia já cheia. A casa estava vazia. Recomeçaram os gritos e os commentarios, o prior veio saber o que era, com o largo capote nos hombros e o chapeirão descido. Todos contavam; a algum pormenor menos fielmente emittido, vozes diziam:
—Não foi assim! A coisa começou...
E punham-se a dizer como tinha sido.
—Mas lá por se encontrar a navalha suja de sangue não se segue que haja mortes, objectou o prior.—E a sua voz de um timbre ingrato e cheia de authoridade fazia peso na roda. Muitos eram da opinião de sua senhoria, concordando:
—Está bem de vêr, está bem de vêr.
—O que devem é ir rebuscar bem a alameda e os meloaes que ficam á roda da horta do conselheiro. Talvez até o Jerolmo esteja nas eiras.
—De lá venho eu agora, disse um.—Não dei noticia d’elle.
Varios trabalhadores então, partiram a esquadrinhar a alameda.
—Se passarem lá por casa digam á senhora Magdalena que lhes dê uma lanterna, disse o prior.—A Joanna quiz tambem ir, mas as mulheres oppuzeram-se. E sentadas na casa de fóra, embiocadas nos chales ou com saias pela cabeça, jaziam silenciosas e curvadas, como se um vento de assolação as vergasse. No silencio lugubre, os soluços da Joanna vinham a espaços como um estribilho magoado. A um canto discutia-se o Estragado, com pormenores recentes. Segundo muito boas opiniões, enforcado devia elle estar havia muito tempo—peste ruim! Algumas tinham palavras de dó para a Francisca—que tinha o corpo como um fungão, da pancadaria. Ao fundo da rua, a voz avinhada ouviu-se:
N’esta rua cheira a sangue,