Viu um homem de barrete preto e em mangas de camisa caminhar aos solavancos. Bebedo por força; fallava só, com palavras entrecortadas e torvas.
—Outro que fosse, regougava, outro que fosse... quero lá saber! Tudo se paga. Arre!
Mais além já, parou um instante cantarolando:
N’esta rua cheira a sangue,
Alguem n’ella se sangrou:
Dizem que foi meu amor,
D’uma sova que levou.
Essa voz rouca e difficil como coada por uma garganta sem cordas, fez tremer Joanna. Era o Estragado. Vinha do conselheiro? Mas se o Jerolmo não fôra lá, que recear? O bebedo ia já longe quando a pobre mulher se resolveu a abandonar o escondrijo. Apressou o passo; era tarde e talvez que o Jerolmo estivesse em casa já... se estivesse, bom Deus! Esta esperança dissolveu-lhe um pouco os terrores, que era animosa como uma filha de herdade. Mentalmente prometteu logo uma missa á Senhora da Boa Morte se nada tivesse havido. Saltou do vallado para a estrada e receosa de magoar o pequenito apoiou-se n’um pedregulho, mas a mão teve um contacto humido e molle que cedeu, ao pousar. Joanna agarrou n’aquillo: era um farrapo de lenço; puxou, e uma cousa dura cahiu dando na pedra um som metallico.
Era uma navalha cheia de sangue. Perdeu completamente a cabeça; o seu coração dilatou-se effervescente de agonias e ourada de lugubres evocações a sua imaginação bolsou presentimentos funestos. Poz-se a correr sem destino pelas ruas da villa, clamando em altos gritos contra o Estragado, contra Deus, contra a sua desgraça! Na calada do povo adormecido a sua voz resoava com uma sonoridade alta e rapida a que o desvairamento imprimia uma nota febril e sincera, que commovia.
Alguns postigos abriram-se, por onde cabeças somnolentas e avidas escutaram. Depois, sapatos ferrados bateram as pedras e os balcões das casas, e os vultos embuçados nas mantas foram seguindo Joanna. Ella contava a quem vinha, que o seu homem estava morto, que os filhos estavam sem pão, que fôra o Estragado. Começava trinta vezes a narrativa ao ultimo que chegava, com a voz velada de choros e estrangulada de soluços. Mas onde estava o Jerolmo? Um trabalhador que recolheu tarde dera nas escaleiras do adro, com o Ricardo e o filho da visinha Francisca, adormecidos um ao lado do outro. Vira a porta aberta e luz na casa de fóra.