—Ai filha! Veio de lá como uma féra. Puxou-me pelos cabellos, quebrou os cantaros da agua, bateu no rapaz com uma corda; que eu é que tinha a culpa, que ia tudo a tiro, que haviam de saber quem era Joaquim Antonio. Perdôe-me pelo amor de Deus, perdôe-me tanta mortificação. Pelos modos ouviu fallar no lugar de feitor do conselheiro... E está com a pinga!

—Sempre gostava de saber se é peccado cada um agenciar a sua vida! O meu homem vai fallar com o fidalgo; o seu quer o lugar—que vá tambem. O outro escolhe, e ninguem tem de que se ficar queixando. Esta é a rezão!

—Tudo lhe disse, visinha, tudo lhe disse! Homem, o visinho Jerolmo não lhe parece mal que tu queiras ser feitor e pretendas o mesmo nicho que elle! Vai e fallas. Fallando é que uma pessoa se entende. Agora o vereis! Ainda me deu mais. Visinha, perdôe-me pelo amor de Deus, mas eu queria dizer-lhe... é que... Olhe, estou a tremer que nem varas verdes, nem me tenho nas pernas, veja lá. Mas é que elle sahiu com más intenções, que se havia de pagar, que ia dar cabo d’elle... Perdôe-me, filha, perdôe-me por alma de seu pai, mas elle é mau e capaz de fazer alguma, em estando bebedo. Não deixe sahir seu marido esta noite, não o deixe sahir.

—Mas se elle se foi agora mesmo! disse a Joanna, de subito abalada.

D’um pulo saltou da lenha, deitou pela cabeça a pobre saia de chita azul, sem mais pensar no Ricardo que brincava no adro, e com o pequeno ao collo deitou a correr para casa do conselheiro. Eram mais de nove horas. Os homens estavam nas eiras, fóra da villa; aqui e além, deitados ao fresco junto das portas escancaradas e escuras, alguns vultos dormiam. A penumbra da noite picada de estrellas, errava nas embocaduras, em cones movediços de uma indecisão phantastica. O campo dormia, e sómente a espaços, no como silencio absorto dos restolhos, latia um cão, ou tilintava a esquilla d’algum jumento de trabalho. A casa do fidalgo ficava no outro extremo da villa, isolada dos casebres por uma alameda de freixos enormes. Á roda era a horta, e por detraz dos laranjaes o olival sem fim. Joanna corria quanto lhe era possivel, arrastada por presentimentos funestos e cheia da idéa do seu homem que era o seu deus.

Nos casinholos d’aquella banda tudo dormia já; a alameda em frente, escancarava a bocca de trevas, que á menor lufada de vento parecia ficar ruminando alguma cousa penivel, n’um segredar entrecortado. A casa do conselheiro mal apparecia ao fundo, com a sua linha de grandes janellas morgadias, cujas pesadas cimalhas avultavam n’uma facha confusa de granito. Em outra occasião Joanna não teria ousado atravessar o caminho áquella hora—que errava por alli o vulto do doutor Soiza á procura do seu inimigo. Muita gente lhe tinha já ouvido os brados roucos, depois de corrido o sino da camara[4], e contava-se que um homem o encontrára havia annos, perdendo a falla no mesmo instante.

[4] Conforme uma antiga usança, ainda agora nas villas do Alemtejo, toca a recolher, nove horas dadas, o sino da camara.

Á entrada do arvoredo Joanna deteve-se a escutar junto de um tronco. Estalavam as ramas por cima, com ruidos seccos. Applicando o ouvido, sentia-se na horta o correr da agua no tanque. Ninguem estava ainda em casa do conselheiro. Joanna resfolegou mais tranquilla: não tinha havido nada! E rapida, aconchegando a criança, percorreu a alameda e foi puxar a sineta do portão, que deu um som vibrante no silencio do edificio. Perguntou pelo marido; não tinha lá ido ainda. Fecharam-lhe a porta com fracasso sem mais resposta. Joanna então ficou hirta e muda, encostada á hombreira, com as fontes latejando.

Onde estava então o Jerolmo, não estando a fallar com o fidalgo? Não era homem de sucias, nunca fôra visto em tabernas, não trabalhava nas eiras, não era cantador noctivago... Era a primeira vez que ella ignorava o seu destino; que fazer? Então relanceando a vista á roda sentiu um calafrio, dos rins á nuca; á forca de perscrutar a sombra as imagens falsearam-lhe, deslocando-se lhe á vista desvairada; parecia que os troncos iam e vinham rojando caudas de folhagens como espectros evocados de campas; os estalidos abriam um murmurio de risinhos sofreados; ondulavam sem nexo bandos de fórmas estranhas e o rumor da agua era de uma conspiração sinistra...

Joanna sentia no peito o coração em sobresaltos e um zumbido perfido enchia-lhe os ouvidos. E cheia de um medo algido, olho atraz olho adiante, como se legiões de genios maus a seguissem, percorreu a alameda arrumada aos troncos e cozida com a sombra. A meio caminho deteve-se. Vira da outra banda um corpo mover-se. Escondeu-se por detraz d’um tronco, com os olhos fitos no ponto em que a fórma bulira. Julgava já ter-se enganado. Mas o vulto tornou a apparecer, cortando em transversal o caminho. Bem depressa passou por diante de Joanna, que tomada de pavor não fazia um movimento, de collada ao freixo.