Todo abafado no casacão, o senhor prior saciado das novidades fresquinhas sahia de casa da viuva, pensando que era ainda uma rica moçoila.
Por outro lado, a morte do Jerolmo irritava-o: fôra depois de cinco annos o mensageiro das suas labutas vinicolas, o que lavrava a seu gosto, o que fazia uva á siranda com mais desembaraço.
Não bebia, não fumava, não era exigente nos preços... Assim pensava sua senhoria quando deu com os pequenos, que iam a passinhos preguiçosos e esfregando os olhos com os punhos, em direitura ao tumulto. E ao vêl-os tão unidos cresceu-lhe uma raiva de dentro, biliosa e vingadora. Separou-os com um safanão furibundo.
—Sucia de marotos, que os enforco!
E dirigindo-se ao Ricardo:
—Vossemecê não tem vergonha em andar com o filho do ladrão que matou o seu pai, hein?
E para o Manel que chorava aterrado d’aquella aggressão:
—A minha vontade era frigir-te, podengo!
E deu-lhe um puxão de orelhas teso.
No dia seguinte foi o enterro. Era d’esses dias ardentes em que, nos troncos das oliveiras as cigarras cantam, e as rôlas se abatem por dezenas sobre as ultimas poças verdenegras dos ribeiros. Apenas o sino chamou a padres e o prior appareceu precedido do sacrista de cruz e caldeirinha, viu-se sahir de casa da Joanna o cortejo. Adiante o sacrista ia de cruz alta e campainha na mão—velho marau de sapateiro, de olho patife e calva luzidia, dos que sabem quantos escandalos usam acompanhar toda a gente do berço ao sepulchro.