Fôra noviço de capuchos, adquirira habitos de glotão e de bebedo, aprendendo a negar a mulher decente. Rosnava-se um pouco das suas relações com a snr.ª Magdalena do prior, e temia-se em geral do seu cynismo correlacionado, segundo se affirmava, com o do diabo, pelo desfastio com que pisava rosarios bentos e fatias de pão torrado. As beatas fulminavam contra elle exorcismos temerosos, porque á sahida de uma missa de finados ourinára na pia da agua benta, estando bebedo. De cruz alçada e opa escarlate, Zé do Ó caminhava piscando o olho ás mulheres, que em saia de estamenha e sapatos de couro crú viam da soleira marchar a procissão da morte, lacrimosas e trocando lamentos. A partir d’elle, duas filas de homens do campo seguiam com os fatos de aspera saragoça dos domingos, chapéos de Braga nos olhos, ornados de uma borla redonda, e os capotes de baetão das mulheres nos hombros. Alguns ainda novos, que tinham sido amigos do Jerolmo e como elle destinados sem resistencia ou vacillação, de pequenos, para cavadores, iam com os olhos vermelhos voltando a cara, envergonhados de serem vistos em pranto pelas mulheres que vinham ás portas e ás esquinas das ruas, rodeadas dos filhos descalços. Viam-se os altos pescoços curtidos pelas calmas do estio e pelas ventanias do inverno, no convivio dos trabalhos de picareta, de arado e de fouce.
As mãos de enormes dedos coreáceos e palmas rugosas de callos, tinham curvas unhas, disformes de martelladas e entalões. Nos dorsos, as vêas de uma espessura consideravel ramificavam-se-lhes em arvore saliente, pondo em pregas a epiderme de poros largos, de que sahiam cabellos. Alguns eram já velhos e curvados, contando trinta, quarenta e cincoenta annos de labuta em charneca, nas lavouras, nas ceifas, nas ferras do gado, no córte dos azinhaes e na recovagem de noite por caminhos terriveis, de matagal em matagal. Tinham as cabeças brancas e o passo vago, e olhavam com esse olhar vazio de quem nunca teve esperança e de quem jámais teve fortuna. Haviam ganho toda a vida o mesmo salario, cobrindo-se de filhos constantemente e fazendo da fecundidade uma distracção, a unica, que lhes era dada, e que ainda assim caro pagavam. Dois ou tres nunca haviam possuido um fato novo. Quasi todos tinham andado descalços e rotos até aos vinte annos.
Havia n’essas faces, mesmo fóra dos enterros, o mesmo ar lugubre e suspenso que alli mostravam; pareciam seguir como se aguardassem alguma cousa retardada de ha muito, boçaes e emparvoados, não dando pela carie dos dentes e pelo espasmo de humildade que os ia bestificando. Proximo á tumba os irmãos da Joanna e os tios do Jerolmo iam affectando grande mágoa com as golas dos capotes erguidas, cabeças baixas e amarradas em lenços. Depois o padre: era alto, possantes hombros de tambor-mór, a barba de cinco dias negrejando de espessa, um carrancudo alarve na face. Como a volta era apertada, o seu pescoço extravasava gordurento fazendo uma rosca de carne, que pendia reflectindo um rubor sobre a pelle do queixo e da cara, d’onde o suor borbulhava. Tinha as orelhas de um guardião, ar imperativo e voz grossa, em que a nota surda dos desejos que se refreiam, dominava. Era um pouco agricultor e um pouco musico e nas recitas da terra fazia papeis de tyranno, esbracejando com furia para todos os lados. A tumba ia por fim, aos hombros de quatro mendigos, e um rapaz após levava o banco de pinho para a fazer descer, nos responsos.
Era um esquife de pau preto com balaustres delgados, tendo o ar d’um berço. Na villa causava horror. Era com que mettiam medo ás crianças: via-se-lhe pregada na cabeceira uma cruz preta, e um Christo de ferro com resplendor de lata que tremia, agonisava pessimamente fundido, mostrando os olhos vazios. No fundo via-se a enxerga coberta de paninho preto em farrapos, onde deitavam os cadaveres, havia muito. Esse pano tinha nodoas gommosas, á altura da cabeça. Os va-nu-pieds abatidos para a valla durante os ultimos quinze annos haviam alli impresso o seu remember de mucus sanguinolento, de que tresandava um fetido em baforadas. Era onde ia o Jerolmo, vestido no seu fato de saragoça, com sapatos de bezerro enormes nos pés, os dois pulsos unidos por uma tira de chita negra a premir as mãos cruzadas no peito, na attitude de uma imploração derradeira.
—Ainda hontem a estas horas estava são e vivo! era o pasmo da villa.—E vinha todo um volume de ponderações sobre a fraqueza da creatura de Deus.
Aos solavancos dos velhos que tinham desiguaes alturas, o corpo pendera mais para uma banda; á menor anfractuosidade do caminho então, os sobrecarregados rogavam surdamente as pragas mais torpes,—que nem valia a pena levar um boi d’aquelles pelos seis vintens da esmola.
O mais ratão dos quatro era um velhito baixo, que mostrava escarlate uma orbita sem olho e já cahira numa contramina de horta. Dizia elle com bella emphase, todo serio:
—Como estas bestas morrem sem derreterem os toucinhos, senhores!
O garoto do banco escandalisou-se e resmungou:
—Vossemecê não tem vergonha em fazer mangação dos defuntos?