Os outros riram, e o mais alto:
—Caluda, filhote! Que ainda te havemos de levar adiante.
Mas o prior voltou-se, e da frente o sacristão veio correndo de cruz ao hombro, em ar de clavina, com a caldeirinha estendida para o responso. Os quatro da tumba pararam, o garoto estendeu o banco.
—Abaixo! ordenou o prior enfastiado.
O esquife desceu. Uma vida fecundante de atomos impalpaveis vibrava na luz, metallica na irradiação da cupula amplissima. O enterro tinha parado e todos se voltavam para traz, olhando o prior que espargia agua benta sobre o corpo do Jerolmo. Estava-se quasi fóra da villa, ao meio da rua ultima d’aquella banda, que entre filas de casebres caiados corria, corcovando-se bruscamente depois sobre a azinhaga.
Como o sol batia de chapa, os trabalhadores faziam tecto com as mãos em arco, á altura das sobrancelhas, abrindo a bocca e premindo as palpebras, por uma contracção inconsciente de musculos faciaes. Sobre os balcões das portas, as mulheres olhavam alongando saudosamente os grandes olhos pretos, humidos de lagrimas. Abaixo da orla das saias de chita viam-se os tornozêlos de algumas, calçados em meias de linha azul. Muitas faziam meia, com os cabellos oleosos de azeite e a marrafa separando as madeixas em duas pastas symetricas e alisadas. Na terra das soleiras as crianças seminuas rolavam-se rindo; um fumo raso subia das chaminés. Na ultima porta tinham acabado de jantar e via-se a malga na mesa baixa, os garfos de ferro com tres dentes apenas, restos do enorme pão da amassadura da semana, e em torno inda sentada a familia, onde o chefe, velho pastor de polainas altas e ampla calva, rezava de mãos postas e labios mexendo, com o chapeirão nos joelhos.
O Jerolmo era muito estimado. Todos diziam —coitadinho!—lagrimejando. E enumeravam as suas virtudes, o seu bom genio, a sua economia, a sua temperança. Os bons leva Deus, que são do céo, dizia uma velha. Mas a voz do prior ouviu-se imperativa e cheia de sabedoria em ruminação de latins, e fez-se um silencio piedoso. Toda a gente ajoelhou, que ninguem ouvia latim n’outra postura na villa. A recitação grave e n’uma lingua estranha dava aos espiritos simples a profunda emoção de um fim proximo e a lembrança de almas que partem para as regiões serenas da bemaventurança com o seu peculio de graças adquiridas e azas brancas da innocencia. O prior ia dizendo:
—De profundis clamavit ad te Domine. Domine exaudi vocem meam; nec aspiciat me visus hominis.
Kyrie eleison, Christe eleison, Kyrie eleison! Pater noster...
E as vozes rezavam baixo n’um côro murmurado, que ia como o som do vento n’uma fenda, alternadamente agonisando e subindo até se perder, á ultima aspersão de agua benta do prior. De pescoço estendido as mulheres brancas de pavor, olhavam ao meio da rua o esquife envolto na luz, onde ia o corpo do trabalhador, retesado na rigidez que antecede a podridão. Descahira-lhe a cabeça para traz por haver escorregado um pouco a cabeceira da enxerga, e o bordo da queixada, de uma linha parabolica, repuxava-lhe angustiosamente os tendões do pescoço esverdinhado, em que fazia corcova o nó da guela inutil.