Corria-lhe das ventas um fio de sangue negro que os moscardos vinham beber zumbindo, e por entre os dentes a espaços, na bocca que se abrira na convulsão da ultima hora, gotas de gaz podre faziam crepitar globosinhos, da intima fermentação que progredia.

Os amigos d’outro tempo tiravam então o lenço do bolso das véstias e sahiam aos dois e aos tres do seu lugar, para piedosamente virem limpar a cara e os labios do Jerolmo.

—Bemdito seja Deus! diziam, apavorados pelo fervilhar da corrupção cadaverica que a torridez do sol activava prodigiosamente.

O prior tinha acabado o responso e abrira o seu enorme chapéo de sol.

—Carreguem, ordenou sua reverencia aos quatro homens. E o enterro entrou na azinhaga que ia dar ao cemiterio.

Cada qual sentindo-se um pouco á vontade no campo, teve a necessidade de fallar na sua vida, cousas alegres e capazes de afugentar os maus pesadêlos da cova.

—Quem teve seara guapa foi cá o mariola!—ia dizendo um homemzarrão, e depunha os grossos dedos no hombro de um secco, de olho desconfiado.

—É p’ra que saiba. E ainda temos hoje um calcadouro de tremez.

—E quando chega esse casorio? quiz saber um rapazola louro, riso boçal de pobre diabo.

—Está p’ra tarde. Antes da vindima não, diziam.