—Oh vamos.

As rãs eram a paixão dos dois, o seu sonho, a sua coisa mais ambicionada na vida. Tinham construido sobre ellas as lendas mais extraordinarias e feito, por copia do que ouviam ás mães, uma quantidade de promessas aos santos se um dia conseguissem apanhar uma viva, das grandes.

Á tardinha, quando os olhos vigilantes da Joanna por um instante os largavam, corriam logo para o ribeiro. Á chegada dos dois as rãs saltavam de todos os lados, da espessura dos juncos e mentrastes, sobre a agua dos charcos com um sonoro plhau! na profundeza dos pégos. Calavam-se logo agachados no tufo de eucalyptos, esperando pacientemente a occasião. N’uma circumvolução do regato, pensando-se sósinhas algumas das rãs coaxavam á flôr d’agua, erguendo acima do nivel tranquillo as chatas cabeças verdes, olhos estourados de iris côr de ouro, a enorme bocca semi-elliptica aberta ao ar n’uma especie de sorriso extatico, e a fila de pequeninos dentes corneos um pouco curvos, dispostos para a apprehensão dos animalculos. Erguiam-se então com grandes precauções e subtilezas, acautelavam extraordinariamente o ruido das passadas, promettendo baixinho na febre do desejo, duzias de padre-nossos a Santo Antonio se fosse servido entregar-lhes algum dos animaesinhos que faziam a sua paixão e o seu desespero. Mas precipitados como eram não conseguiam jámais aprisionar os elegantes anuros, e cahindo a noite das montanhas azues alinhadas em decoração ao fundo da paisagem ridente, voltavam cheios de tristeza e cansaço para as cêas da familia, acabando por adormecer um ao pé do outro. Na volta sentiam com surda raiva o côro de rãs unisono e forte, magnificamente instrumentado de ironias, que parecia de proposito erguido para lhes saudar a retirada e escarnecer do desalento e pouca arte que empregavam na pescaria. Tal côro, na penumbra mysteriosa e vasta dos campos, tinha a concentração harmonica e a poesia nubigava de um threno—hymno de liberdade de uma colonia que de subito readquire a sua independencia. O Manel, especialmente, embirrava com a troça. E com mão rapida, fazia chover nas poças d’agua mais sonoras, grandes pedras talhadas em cunha e seguidas de pragas adequadas ao caso e á solidão do lugar.

Tinham ouvido aos rapazes que as pernas das rãs tinham uma carne excellente e branca, tenra e fina como a de gallinha. Nenhum d’elles comera ainda: mas era magnifico! Tinha-lhe contado o Coxo, um idiota da terra, que uma vez apanhara uma rã muito grande. E vai abriu-a, e tinha na barriga um canivetinho de duas folhas, muito bonito. Para os dois pequenos, ter um canivete de duas folhas era uma opulencia inestimavel. Em qualquer d’elles, nos dias de desavenças ou amuos, querendo fazer sombra ao outro, já dizia:

—Deixa estar que eu hei-de ter um canivetinho de duas folhas e tu não!

—Ha-de, uma figa torta! dizia logo o outro.

Porque traziam as rãs canivetesinhos na barriga? Não sabiam. Mas traziam, traziam!

O Manel que era o mais imaginoso, entrava a explicar que as rãs faziam buracos pelo chão, furavam, furavam... e iam ter á loja do Vieira para roubarem as navalhinhas. Então o Ricardo ria.

—Mentira!

E com a vózita gaguejada, phantasiava por seu turno uma theoria sobre os canivetes. E ambos á borda das poças se interrogavam de vez em quando, surprezos: