—Mas como será que ellas teem canivetes lá por dentro? Aquillo é cousa que os engolem.
—Qual!
Como o calor era intenso, os anuros andavam no fundo da agua, por baixo de limos reticulados com a delicadeza de frócos. O tufo d’eucalyptos lançava porém sobre o pégo mais proximo da ponte uma sombra alongada: alli sentia-se coaxar. As duas crianças agachadas quedavam-se, á espreita:
—Que cantoria que fazem! dizia baixinho o Ricardo.
—Deixa! resmungou o outro com ares fanfarrões. Eu dou cabo d’aquelles diabos.
Piscava os olhinhos com intenção, tirando do bolso um pedaço d’arame aguçado.
—Ellas apparecem, eu vou com isto estendido e tancho-as por uma perna.
E com profundo desdem:
—Hoje não é cá preciso padre-nossos!...
Foram-se aproximando do pégo, de gatinhas. Viam-se os tornozêlos do Ricardo, grossos e de ligamentos inabalaveis, e o pé polpudo e forte, bom para firmar o corpo. Devia ser de estatura mediana e muito robusto, de rico sangue. Pela camisa aberta e rasgada via-se o contraste da carne branca do tronco com a epiderme fulva da cara e das mãos. Solido como um novilho devia ter a indole ingenua e boa do Jerolmo, como lhe herdára a enformação animal. O Manel era esguio e secco, anguloso de ossatura. Tinha os cabellos corredios e as mãos estreitas, com unhas que revestiam quasi o dorso das phalanges terminaes. Era já teimoso e de nervos susceptiveis. A sua organisação sensibilissima, presentida, daria mais tarde o typo physicamente inhabil para a labuta da enxada e em construcção perpetua de estratagemas. Tinha os olhos grandes e lucidos como dois onyx molhados, e a linha do nariz sem proeminencia, fazendo lembrar na cara olivatre e comprida o que quer que era de masque egypcia. Áquelle tempo, o sino da Misericordia mandava o ultimo dobre de finados. E o som badalado de quebrada em quebrada chegou ás crianças.