O Ricardo parou, erguendo a cabeça. Alongava os olhos com essa tristeza vaga dos que de outra fórma não conseguem formular uma commoção interior. Lembrava-lhe o pai morto que iam metter na cova. Como essas naturezas que a musica enche de soluços e de invencivel angustia, o sino com aquella toada grave e preguiçosa—Tlão! Tlão!—Tlão! Tlão!—dava-lhe como uma reminiscencia lugubre.
A esse tempo o Manel erguera-se tambem, esquecido da pesca. E os seus olhos deram com o enterro. O Zé do Ó ia entrando já pelo cemiterio, a opa escarlate parecia de longe uma papoila cortada que o vento impelle.
Na meia-laranja da porta depois, os homens de escuro apinhavam-se para deixar passar a tumba, muito alta aos hombros dos velhos, em que o Jerolmo de mãos postas oscillava penetrando os muros brancos.
—É o teu pai! fez o Manel.
—Vai pró céo, então não vai?
—Está visto!
—Elle não gostava do teu, então gostava?
—Não gostava! O meu anda sempre bebedo. É tão mau!... Dá com a corda.
—Ó Manel! Manel!
—Que é?